terça-feira, março 11, 2008

Na CDD

Na Cidade de Deus, dizia Buscapé no filme, não dá pra saber o que é pior: encarar os bandidos ou a polícia. Semana passada, ninguém passava ali. Todos os acessos à favela estavam fechados pelos hômi. Tiroteio a madrugada toda. Ônibus e carros precisavam fazer a volta pela Barra.

Mas não quero falar disso agora. Prefiro lembrar da feijoada da Graça.

Era uma tarde de sábado quando cheguei naquela ruela de paralelepípedos. Avistei logo uns amigos com uma latinha de cerveja na mão. Graça, a faxineira da academia, me recebeu toda feliz, era inauguração do boteco dela. Minutos depois eu já estava com minha latinha, batendo papo. Um paredão de caixas de som tocava um pagode, ainda lentinho, só cozinhando o pessoal antes de começar a farra pra valer. Mães levaram cadeiras de praia pra calçada e faziam penteados nos cabelos das filhas. Dois amigos meus jogavam sueca com moradores da CDD. Parei pra espiar o jogo, enquanto batia meu pratão de feijoada preparado pela Graça. Um dos moradores, um mudinho cachaceiro, estava dando um sacode nos playboys. A cada vitória, um gole de caninha, que ele comprava com moedas de 10 centavos retiradas de um saco velho de mercado. Ele jogava, ganhava e bebia. Bebia de novo. Mais uma vez. “Por que você não come?”, perguntei. Ele riu, como se dissesse: “Não vou gastar minhas moedas com isso”. Olhei meu pratão de feijoada que eu não conseguia terminar. Ofereci. “Toma. Não consigo mais”. O Mudinho pegou meu prato, e comeu, feliz. Largou da cana pelo menos até terminar a comida. Um pancadão nervoso começou a tocar. Popozudas de shortinho já se posicionaram em frente à parede de som. Funkeira metida à mãe loura desde os tempos de rádio Manchete, resolvi me meter no meio delas. Dancei, balancei meu popô G até o chão. Não me contentei com a dança, comecei a cantar também. Quando percebi, segurava um microfone e puxava um melô qualquer com voz esganiçada. A galera dançava, se divertia com a MC branquela. A feijoada da Graça era um sucesso. Cansei de pagar mico com “as colega” e fui dançar com os amigos da academia. A essa altura, o Mudinho já tinha terminado a feijoada e requebrava na pista de dança – que era o meio da rua mesmo. Um colega dele, que só tinha uma perna, chegou do lado balançando as muletas de madeira carcomida. Começaram a se estranhar. Mudinho versus Perneta. O povo ria com os empurrões que um dava no outro. Botavam pilha nos dois. Mas a briga não passou disso. Logo eles estavam rindo também, embalados pela cana, pela música e pela alegria de estar ali. Alegria que era dos moradores e dos playbas como eu. A feijoada foi até tarde. Graça estava em estado dela mesma, estado de graça. Com perdão do trocadilho.

Depois deste dia, voltei outra vez lá, para um churrasco. Mas isso já é outra história. Desde então, nunca mais vi Graça. Espero que ela esteja bem e que os hômi não tenham mexido com o boteco dela. Quero voltar lá.

4 comentários:

Marcelo disse...

Eu lembro desta história babi! Mas, contada assim, é íncrível, daria um belo curta. Pô, aciona seu marido! Ah, eu amei também o "We´ll always have Paris". Sensibilíssimo. Femininíssimo, enfim, belíssimo! beijos do rachinho.

Flávia Motta disse...

saudade de feijoada com pagode...

paulinho disse...

adorei, mãe loira!

beijo grande!

Comentário Solitário disse...

Menina, consigo imaginar tudo isso, fácil!

Muito bom!

Depois preciso saber o que foram exatamente os "tempos de Rádio Manchete". rs