terça-feira, dezembro 29, 2009

Contorcionismo

Quando sentou naquela cadeira preta carregada de pastas, papeis e laptop, sabia que iria precisar de um intenso trabalho psicológico para não desmaiar. Suas mãos, traidoras como sempre, não tremiam: trincaram. Os dedos contorcidos para dentro, sinal de perda de controle, de medo e insegurança. Aquela apresentação seria a cereja do bolo catastrófico que era sua vida, assado entre vexames de timidez e constrangimento.

As velhas cenas passaram novamente em sua cabeça, como o início de um clipe bizarro cujo fim se daria dali a minutos. Lembrou-se do desmaio durante a apresentação de um reles seminário de História na quinta-série. Da tentativa de esconder do parceiro as mãos torcidas de nervoso enquanto perdia a virgindade, há 15 anos. Da sensação de surdez ao ser chamada pelos pais de prostituta na frente dos amigos, só porque havia convidado um ex-namorado para uma festa. Das dezenas de entrevistas de emprego em que simplesmente perdeu a memória e não conseguia se lembrar do próprio nome.

Com o tempo, aprendeu a controlar um pouco os ataques de pânico, mas, ainda assim, não conseguia ser natural quando se sentia pressionada em público. Sua técnica era respirar fundo, dizendo para si mesma ‘Eu vou conseguir’, ou qualquer bobagem ensinada em livros de auto-ajuda. Ficava perdida em um mundo paralelo até se recuperar e falar qualquer coisa com sujeito e predicado.

Agora estava pronta para ser crucificada perante a chefia. Cabeças internacionais, pessoas de negócios, raposas de pensamento, gente que ela odiava com todas as forças. Talvez não conseguisse ler os números no Power point, ou apontar para a tela projetada na parede. Talvez nem o laptop ela conseguisse abrir, já que os dedos estavam cravados na palma de sua mão. Em seu cérebro boiava um iceberg, gelando os neurônios. Desta vez, seria fatal, ela sabia que não sairia viva dali. ‘Rezem por mim’, pensou, antes de entrar na sala. Rezem quem? Ninguém sabe que ela é assim. E se soubessem, iriam olhar com o desprezo dos superiores.

Ela está sozinha. É o fim.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Mamões amassados

Com dificuldade, abriu a porta de casa e colocou a caixa de mamões amassados sobre a pia da cozinha. Olhou aquelas frutas feias e se perguntou por que as havia comprado.

Naquele dia, Lia havia deixado de ir à feira cedo porque deveria lavar a louça. Enquanto secava os pratos, lembrou-se da poeira sob o sofá e do dinheiro que deveria depositar no banco. Tirou o pó, foi ao banco e só na volta conseguiu passar na feira. Tudo o que conseguiu foram os mamões amassados.

O calor que fazia naquele meio-dia de segunda deve tê-la deixado de miolo mole. Lia começou a achar ridículas todas as necessidades básicas do homem, principalmente esta por comida. Viu os últimos fregueses caçando a xepa e imaginou-os animalescos, comendo os mamões amassados, as sementes pretas escorrendo no canto da boca. Tão simplório este ato de comer, para depois eliminar, e depois comer de novo. No futuro, ninguém se importaria com os hábitos daquelas criaturas, com o que faziam ou deixavam de fazer.

Ela também, Lia, fazia parte deste ciclo e seria esquecida. Quem vai saber que ela deixou de ir à feira para lavar a louça, e por isso teve de se contentar com mamões amassados? Achou suas necessidades mundanas muito pequenas para continuá-las repetindo. Só pensava no futuro e na sua ausência dele. Não haveria registro de sua estúpida rotina. Lia seria mais uma foto embolorada, perdida em álbuns de família, com a expressão de uma pessoa do século passado, mórbida como num filme de fantasmas.

quinta-feira, outubro 01, 2009

O japonês do terno puído

Já tinha topado com loucos a dar com o pau, loucos de pedra e de bebida, gente que falava sozinha na rua. Na terra estrangeira onde morava havia pouco, os olhos alheios a assombravam. Sabia que se cruzasse olhares com os errantes perdidos nos quarteirões e terminais rodoviários seria perigoso, quase fatal: “olhe e enlouqueça!” Mas mesmo com todo cuidado para não tocar a vil realidade, ela sofreu com xingamentos esdrúxulos no metrô, levou um soco no braço ao passar rapidamente entre um sujeito e o muro. Era constantemente interrompida em suas viagens abstratas por pessoas ainda mais abstratas que ela, a ponto de achar que ela própria havia enlouquecido.

Mas nada foi tão tenebroso quanto ser perseguida pelo japonês do terno puído. Não era noite, não estava escuro nem deserto. Talvez fizesse sol, o que, para ela, funcionava como blindagem contra sentimentos tristes. Ao caminhar na rua, sentiu passos próximos, até que a pessoa colocou-se a seu lado, a um metro de distância. Os passos dele casaram-se aos dela, pareciam fazer parte de um número de passos sincronizados. Ela se adiantou, aumentou a velocidade, odiava caminhar com desconhecidos. Mas o homem acelerou, até estar alinhado com ela novamente. Ela decidiu retardar o passo, e viu o estranho passar à frente: era um japonês alto, de cabelo cortado como nos anos 80, vestindo um terno puído que talvez fosse da mesma época. Tinha apenas um guarda-chuva na mão, e olhou discretamente para trás quando se viu sozinho. Reduziu suas passadas. Nervosa, ela parou em frente a uma banca de jornais, fingindo ler manchetes. Poucos metros adiante, o homem também parou.

Estava confirmado: aquilo era perseguição, e das brabas. Tentou tranquilizar-se pensando que o japonês só tinha um guarda-chuva na mão, e que isso ela também tinha na bolsa, caso ele decidisse atacá-la. Mas sabe-se lá que tecnologia japonesa o guarda-chuva oriental escondia. Podia ser uma arma letal. Uma bomba, ou um spray de pimenta disfarçado. Desesperou-se. Começou a caminhar rapidamente na direção contrária. Se ele a imitasse, gritaria “socorro”. Lembrou que sua mãe sempre a ensinou a gritar “Fogo!”, pois chamava mais atenção. Mas quem acreditaria num incêndio em plena calçada às 4 da tarde? De rabo de olho, percebeu o terno puído indo atrás dela, implacável. Aproveitou o sinal aberto e atravessou a rua, como louca, correndo sem olhar para trás.

Entrou no shopping ofegante, escondeu-se na pilastra de espelhos, onde ficou por alguns minutos. De repente encarou uns olhos assustados, que logo percebeu serem dela. Estava descabelada, pálida como um fantasma, os botões da camisa abertos, como se os seios quisessem fugir também. Não viu mais o japonês, mas nunca mais deixou de olhar em volta quando sai de casa. Assim como os mendigos loucos que vivem nas ruas, talvez ele ainda a observe, tramando enlouquecê-la junto com todo o resto.

quinta-feira, agosto 13, 2009

A música acabou!

Há 20 anos eles entravam no palco de patins, esbanjando “pure energy”. O tempo passou, a fama já era e a energia idem, mas ainda assim o Information Society resolveu faturar uns trocados no Brasil. Não que eles não tenham se esforçado no palco. Apesar da aparência de titios gordinhos, Paul Robb, Kurt Harland e James Cassidy pularam bastante no show realizado em São Paulo, no Via Funchal, nesta quarta, 12. Tentando comunicação com a plateia, o vocalista arriscou várias palavras em português, e criou um bordão meio patético ao fim de cada canção. “A música acabou!”, dizia, com sotaque gringo puríssimo. Aparentemente os músicos estavam se divertindo no palco, provavelmente pensando: “Como é fácil ganhar dinheiro no Brasil!”.

Mas o público, longe de lotar a casa, também estava ali não tanto pela banda, e mais para viver um momento flashback. Relembrar o passado, a juventude perdida nas festinhas da adolescência, os passinhos dos anos 90. Entre os presentes estavam patricinhas quarentonas com roupa de oncinha e braços para cima (crentes que estavam numa balada), balzacos alternativos, tiozões de cabelo comprido e playboys circulando pela pista (quase vazia), tentando azarar alguém. Alguns fãs verdadeiros também estavam por lá, cantando com empolgação os sucessos “What’s on your mind”, “Running” e “Walking away”. Tirando os momentos “hit parade”, a reação dos paulistas foi apática.

Recepção mais calorosa a banda teve no Rio de Janeiro, em show realizado dias antes. Lá, Information Society e funk sempre andaram juntos, esquentando pistas nas festinhas de 20 anos atrás, e rendendo passinhos de dança até hoje. O famoso grito de guerra no refrão de “Running” (“Vai tomar no c*!”), privilégio da criatividade carioca, transformou o show em um espetáculo mais animado (veja o vídeo aqui). “Ôo, Information é o terror!”, gritava o público entre uma música e outra. No palco, os “terroristas” tentavam dar o máximo permitido pela idade, exagerando nas batidas eletrônicas e nos efeitos especiais no telão.
Mas, ao contrário de pioneiros como Kraftwerk, que a cada apresentação parecem mais atuais do que nunca, o Information Society ficou velho. Não só de aparência, e isso nem é tão importante. Afinal, os alemães também estão barrigudinhos, mas não deixam a desejar artisticamente. O que envelheceu foi a música, que ficou perdida lá nos idos anos 80 e 90. Ótimo para ouvir em festinhas e dançar, mas sem peso algum que justifique um show. Definitivamente, a música – do Information Society - acabou.

FOTOS: André Bittencourt

terça-feira, agosto 04, 2009

Chaplins alucinados

Deita-se conformado. Mais uma noite de zumbido o espera, aquele vindo de dentro, ouvido sempre que se sente fora do eixo. Pensa que o barulho vem das traquitanas de seu cérebro, mexendo-se desconexas, como se chaplins escorregassem alucinados por suas engenhocas. Para lubrificar as porcas e parafusos, talvez leite quente dê cabo. Talvez cantar espante o zumzumzum. Pensa em Elvis, “Sweet Caroline”. Depois sussurra “Suspicious Minds”. Mas o Grande Ditador não deixa o Rei tomar conta, e intensifica os zumbidos. Pensa em apelar para comprimidos. Mas é tão medroso que prefere ficar na companhia de seus chaplins esquizofrênicos, desejando que eles sejam tão geniais quanto o bigodudo de bengala. Mas consciente de que são apenas reles peças dos Tempos Modernos.

terça-feira, junho 23, 2009

Dentes

“Olhe bem pra mim, como estão meus dentes?”. Suzana abria o bocão para Carlitos. Ele olhou e fez cara de lástima. “Estão podres, Suzana”. Ela não se conformou. “Podre é você, Carlitos”.

Suzana sabia que só seria aceita no emprego de copeira se estivesse com os dentes em ordem. A época dos escravos já havia acabado há várias décadas, mas o hábito de examinar a arcada dos empregados ainda persistia em algumas fazendas.

Pegou um espelho pequeno, enfiou-o na boca e mirou-se no espelho grande do banheiro. Sim, estavam podres os dentes, as carnes em volta dos dentes, o hálito vindo da garganta. Desesperou-se.

“Faça bochecho com água sanitária. Você vai sorrir marfim”, disse Cotinha, uma moça da qual Suzana não gostava muito, durante um bate-papo na beira do riacho. “Acha que sou doida? Você quer é me ver desdentada”. Cotinha deu de ombros.

Andando para casa, a trouxa de roupa lavada na cabeça, Suzana decidiu seguir o conselho de Cotinha. “Pior do que está não pode ficar”. Já dentro do banheiro, Suzana mirou-se no espelho. Tinha um copinho de água sanitária nas mãos. Bochechou tudo de uma vez.

Lá de fora, Carlitos ouviu o grito alucinado da mulher. Encontrou-a no banheiro, quase sufocada, com as mãos na garganta. “Á...gua”, ela esforçou-se para dizer. Segundos depois, Suzana despejava sobre a boca a garrafa d’água levada pelo marido.

Não foi preciso muito tempo para a pobre moça perder todos os dentes. Cada dia acordava com um sobre o travesseiro. “Aquela Cotinha... Aquela sem-vergonha...”, chorava Suzana. “Ninguém mandou seguir conselho do inimigo, mulher”. Carlitos não dava colher de chá. O tempo passou e ela ficou banguela, banguelinha mesmo, como um bebê recém-nascido.

Mas, como diria a bisavó, avó, a mãe e a própria Suzana, há males que vêm para bem. O ano seguinte foi de eleições e naquela época políticos gostavam muito de dentadura. A troco de um voto, Suzana ganhou dentes novos e foi exibi-los em uma fazenda que contratava copeiras. Conseguiu o trabalho, e ficou conhecida na casa por suas largas e divertidas gargalhadas.

quarta-feira, junho 17, 2009

Dois goles

Sentou-se na mesa de bar sozinha.

“Dois chopes”.

“Sim, senhora. Os dois agora?”, estranhou o garçom.

“Sim”.

Minutos depois ele colocava dois cremosos lourinhos em sua mesa.

“Brinda comigo?”, pediu ela.

“Dona, estou trabalhando. Não posso beber”.

“Só um brinde. Não precisa beber. É que dá azar beber sem brindar”.

O garçom olhou para os lados. O chefe, Seu Gumercindo, não estava por perto.

“Tim-Tim”. Ambos bateram as tulipas.

“Toma um golinho”.

“Senhora, eu preciso atender outras mesas...”

“O bar está praticamente vazio. Tem mais garçom que cliente”.

“Mesmo assim. Pega mal. Não posso beber em serviço”.

“Me sinto tão só...”, ela suplicou. Olhou o crachá do homem. “Bebe um golinho, Ulisses. Por mim, vai”.

O garçom respirou fundo. Sabia que não podia. Mas a moça era bonita...

“Viu? Um golinho só. Ninguém sabe, ninguém viu”, disse ela, vendo Ulisses limpar o bigode de espuma em cima do lábio.

Seu Gumercindo apareceu no balcão. Ulisses se aprumou.

“Ok, senhora. Qualquer coisa, pode me chamar. Vou continuar meu serviço”.

Ela seguiu bebendo sozinha. Viu Ulisses entrar e sair da cozinha. Ele não tinha o que fazer.

“Ei! Por favor!”, chamou ela. “Uma porção de batata-frita”, pediu, quando Ulisses se aproximou.

Minutos depois, chegou a porção. Quentinha, crocante.

“Prova, Ulisses. E toma outro gole”.

“Dona... A senhora vai me complicar”.

Ulisses colocou três batatas na boca de uma só vez. Um gole rápido de chope ajudou a maçaroca a descer.

“Não vai perguntar meu nome? Eu digo ‘Ulisses’ e você responde ‘Dona’?”

“Qual a sua graça?”. Ele a olhava com interesse.

“Odineide. Mas pode me chamar de Dina”.

“Dina eu gosto. Combina com... piscina”. Ulisses era mesmo sem jeito.

“E também com morfina, cartolina, anilina... Senta um pouco comigo.”

Dina sabia que Ulisses não podia. Mas ele a surpreendeu com um convite.

“Já deu minha hora, vou bater o cartão. Eu não posso beber aqui, mas... A senhora não quer ir lá na outra esquina, Dina?”. Ele riu com a própria rima involuntária.

“Está bem”, disse a moça, bebendo o resto do chope.

Minutos depois ele saiu, perfumado e sem uniforme de garçom.

Vendo-os descer a rua de mãos dadas, Seu Gumercindo sorriu.

“Há 20 anos eles fazem a mesma coisa. E Ulisses nunca percebeu que eu sei que ele bebe”.

“E o senhor não faz nada por quê?”, perguntou um garçom.

“Porque ele só bebe com a Dina. E são sempre dois goles. Um amor bonito desses... Pra que interromper?”.

segunda-feira, junho 08, 2009

Cuen!

Descobrir o não-talento para alguma coisa é uma forma de amadurecimento.
Diminuem cobranças. A pressão de si para si.
Entender que o caminho seguido não foi o ideal, mas nem por isso inútil, diminui sentimentos culposos.
Ir atrás do que se acha certo é válido em qualquer altura da vida.

Escrever frases cafonas quando a criatividade anda em baixa: é um direito.
E tenho dito!

quinta-feira, maio 28, 2009

O dia em que o farsante encarou o espelho

Já estava desconfiado há anos. Mas, ao completar seu 40º aniversário, Toby não teve mais como fugir. Definitivamente – e disse isso mirando-se firme no espelho – ele era uma farsa. Que ninguém lá fora me ouça, pensou. 

A constatação deixou Toby frustrado. Por mais que, vez ou outra, uma vozinha do além tentava convencê-lo de sua inutilidade, a auto-estima sempre lhe disse que ele era o máximo. Agora Toby sabia que estava mais para mínimo, e as centenas de livros de autores consagrados em sua estante, lidos pela metade ou intocados, assinavam embaixo que ele realmente era uma farsa. Longe de ser o intelectual, o culto, o sensível, características que os outros lhe creditavam, e que ele piamente acreditava. 

Rememorou seus textos, escritos desde a adolescência até então, e percebeu como eram rasos. Todos nada mais eram que variações do mesmo tema, as palavras se repetiam, o estilo se manteve, cansativo. Como puderam comprar seus livros ao longo desse tempo? 

Lembrou-se do que dizia às mulheres para conseguir dormir com elas. “Além de escritor, também sou pintor”. Fail, fail, fail. Os quadros mal pintados, ou abandonados por fazer no quartinho dos fundos diziam o oposto. Que feio. 

Toby agora estava diante de um dilema moral: revelar ou não ao mundo que era uma farsa? Assumir publicamente que é mais raso que um prato de salada, ou seguir fingindo profundidade, causando inveja em amigos, comendo mulheres incríveis, ganhando dinheiro sem derramar uma gota de suor? 

Toby não tinha coragem de renegar-se. Não aos 40 anos. Não ia manchar sua existência por isso. Afinal, o resto do mundo, pelo menos a maioria, também é de farsantes. Gente que entra para a história com base em mentiras. Ele é que não ia ser bobo de queimar o próprio filme. 

Resolvido o embate consigo mesmo, Toby deu um sorrisinho cínico para o espelho e desceu para o salão, onde acontecia o lançamento de seu mais novo best seller, “A inteligência é para poucos”.

segunda-feira, maio 25, 2009

Com algum atraso...

Publiquei retroativamente um texto meu na Samizdat.
É um dos que mais gosto: "Como substituir amores"
Leiam aqui!

sábado, maio 16, 2009

Epifania matinal de inverno

Às vezes eu olho tudo de longe, como se não fizesse parte do todo. Só assim consigo enxergar a importância das coisas. Sinto uma pena tão grande que tenho vontade de colocar todos no colo, cuidar e dizer: vai passar. It’s all so beautiful and so sad. E tão misterioso que vai além da minha compreensão. Se bem que às vezes sinto entender tudo, e tenho raiva por choramingar à toa. Se ao menos olhar tudo de longe me fizesse sair do lugar...

sexta-feira, maio 01, 2009

A caligrafia

Aconteceu num inverno qualquer da primeira década de 2000. Veio de repente no meio da penumbra, jogou-me contra a parede e perfurou minha alma com seus olhos distantes. Olhos de passado, de quem já foi e não estava mais ali. Parecia que o conhecia, mas forcei a memória e não encontrei nada parecido com ele. Tirou uma carta amassada do bolso, esfregou-a na minha cara.  Sua expressão era de dor e pavor, ele tinha medo de mim, e ao mesmo tempo uma raiva contida prestes a explodir.

“Quem é você?”, perguntei, mas ele disse que não tinha muito tempo. “Assim que eu sair, você lê”. A carta pressionada contra meu corpo, as lágrimas dele começando a rolar. “Quem é você?”, eu perguntava, tentando encontrar a resposta naqueles olhos familiares, malditos olhos, de onde vem? Ele me abraçou forte, aconchegou-se em meu colo como se sempre o tivesse feito, e esse ato me pareceu corriqueiro como acordar todos os dias e escovar os dentes.

 Num rompante ele se separou de mim, saiu de repente como havia chegado e desapareceu na penumbra. Na mesma hora abri o envelope amassado, era uma carta velha, mas estranhamente datava de 2032. Era de despedida, e dizia “Meus filhos, não me vejo mais neste mundo. Perdoem-me”. A caligrafia suicida era conhecida, as letras, apesar de tremidas, eram familiares. Fiquei completamente sem ar. Afinal, eu conhecia muito bem a pessoa que escreveu a carta... Era eu mesma. 

Alguns anos depois do dia em que ele me perfurou com seus olhos de passado, tenho-o novamente em meus braços. É um bebê, recostado em meu colo, olhando-me com olhos familiares. Entendi que não eram olhos de passado, eram olhos de futuro, de quem seria e ainda não estava lá. Mas, ainda assim, na penumbra, ele me salvou de mim mesma.

segunda-feira, abril 27, 2009

E pobre tem depressão?

Adilson chegou irritado no trabalho. Passou de cabeça baixa por todos e foi até a mesa do chefe pegar as funções do dia. Ao ver a folha com os endereços, o motoboy deu um suspiro profundo. Iria rodar meia cidade entregando papeladas a executivos que nem levantavam os olhos quando ele chegava. Adilson estava com um nó preso na garganta, mas se conteve para não chorar na frente do chefe. Odiava sua vida, seu trabalho, sua falta de dinheiro. Foi até a copa, despejou café no copo e bebeu tudo de uma vez. Queimou a garganta, mas não se importou. Virou-se bruscamente e esbarrou em Liliana, a loirinha azeda do escritório. O café que ela segurava caiu todo em cima de seu tailleur cinza. “Meu, presta atenção no que você faz! Imbecil...”, rosnou em voz anasalada e estridente. Adilson teve vontade de esganá-la, ele nunca foi com a cara daquela mocinha metida à besta. “Só porque fez faculdade você se acha, hein, dona”. Adilson não teve coragem de colocar para fora o pensamento. Desculpou-se, de cabeça baixa, e saiu da copa direto para a recepção. Com o malote na mão, esperou o elevador chegar. A porta se abriu e de dentro saíram três engravatados. “Bom dia, Adilson. Coringão tá bem, hein, véio”, disse um deles. Completamente aéreo, Adilson passou pelos homens sem cumprimentá-los. Eles estranharam o comportamento do motoboy, mas a porta do elevador fechou tão rápido que resolveram deixar pra lá. Adilson foi para a garagem, pegou sua moto e saiu voando como flecha. Fez uma, três, cinco entregas. Todas erradas.Trocou o malote da Paulista pelo da Faria Lima. O da Praça da Sé pelo da marginal. O celular de Adilson começou a tocar sem parar. Era o chefe, irritadíssimo, que tentava entender por que os executivos estavam todos reclamando do “motoboy maluco”. “Adilson, seu idiota, volta em cada escritório e destroca tudo, desgraçado”, disse o chefe para a caixa postal de Adilson, que não estava atendendo o telefone. O motoboy foi direto para casa. Ele não estava se sentindo bem. Abriu a porta e se surpreendeu com gemidos vindos do quarto. Acabou encontrando Cirlene na cama com seu próprio irmão. “Edmilson, eu vou te matar!”. Mas não conseguiu fazer nada. “Eu amo o seu irmão. É dele que eu gosto”, disse Cirlene. Adilson chorou. “Você é motoboy. Edmilson é gerente! Que futuro você vai me dar, Adilson?”, continuou a mulher. Adilson saiu do quarto. “Gerente de lanchonete fuleira da Freguesia do Ó, isso lá é emprego?”, pensou, enquanto pegava a moto novamente. Voltou para o serviço. O chefe veio direto na sua garganta. “Você volta agora em cada escritório e desfaz a confusão que você fez, seu motoboyzinho de merda”. A loirinha azeda apareceu com o tailleur manchado. “Olha o que esse ignorante aprontou. Quero ver ele pagar pra tirar a mancha dessa roupa”. O escritório inteiro começou a olhar. Adilson, com a roupa amassada pelas mãos do chefe, humilhado pela arrogância da loirinha azeda, sentiu a cólera subir-lhe a cabeça. Empurrou com força o chefe e a loirinha azeda, olhou para a plateia assustada e gritou: “Vão todos se foder, seus engomadinhos de merda!”. Foi embora. Os engravatados que eram parceiros do motoboy comentaram: “O cara é legal. Deve estar deprimido”. A loirinha azeda não teve dó: “E lá pobre tem depressão? A gente tenta ajudar essa gente... Mas só leva patada”. O chefe completou: “Relaxa, Li. Esse aí tá no olho da rua”.

quarta-feira, abril 22, 2009

Novidade

Amigos,
Todo dia 22 vou publicar um textinho meu na revista literária virtual Samizdat.
Pretendo publicar textos do "Não Clique" e também coisas novas.
O tema da edição deste mês é realismo fantástico. Coloquei um textinho antigo que gosto muito, e que inclusive faz parte da contracapa do meu livro.
Eis:
http://www.revistasamizdat.com/

quinta-feira, abril 16, 2009

Vivian Vazz é uma geminiana confusa


Ela tem cerca de 25 anos. Mora em um convento, mas ainda está pensando se vai transformar-se em freira ou não. Faz dele um refúgio. Sua origem é uma incógnita, mas suas dores ela conta através das palavras no blog Trigêmeas, ao lado de duas amigas. Pelo que já foi escrito, seu melhor amigo do mundo lá fora se chama Horácio. A companheira no convento é Irmã Rosário. E Fred é um carma que ela carrega desde adolescente.

Assim ela se autodefine:

"Preciso dos opostos, do 8 e do 80, do frio e do calor para me transformar em minha principal antagonista. Freira de corpo, louca da alma."

Quem quiser uma pitada desta alma, clique aqui

sexta-feira, abril 10, 2009

O vestido de Engraçadinha

Feito de cetim, justo na cintura, comprido até os joelhos e com um decote descomunal, o vestido de Engraçadinha era seu preferido. Colocá-lo garantia-lhe uma noite rodrigueana, pecaminosa e proibida como a personagem que levava seu nome. Por muitas noites usou o vestido deliberadamente. Sentia-se mulher desejada, plena e poderosa. A rainha das festas, o centro das atenções. Tão imbatível que o olhar invejoso das outras só lhe causava cócegas. 

O vestido de Engraçadinha foi sua capa protetora por longos anos. Mas – sempre há um ‘mas’ -, ao mesmo tempo em que a protegia, deixava um rastro de mágoas por onde passava. Corações partidos, casais desfeitos, amizades abaladas. Vesti-lo era mergulhar em mentiras que, por mais que não lhe atingissem, feriam quem ela gostava. E isso não era bom.

Como pimenta nos olhos dos outros é refresco, ela só decidiu parar de usar o vestido quando se sentiu perdida. Foi numa noite em que beijou sete pessoas, deitou-se com três e acordou sem amar nenhuma delas. Como um foguete, voou para casa, pegou a tesoura e picotou o vestido em pequenos pedacinhos. Os retalhos, tão macios, viraram enchimento de travesseiro. Nele deitou a cabeça à noite e teve os sonhos mais emocionantes de sua vida. Mas a vantagem era que, ao acordar, nada estava fora do lugar. Ninguém estava triste com ela.

terça-feira, março 31, 2009

Não Abra e Não Clique bombando em SP




Deu no Jornal da Tarde de hoje!




Aliás, já comprou o seu Não Abra? Do it, baby, now! Clique aqui.

segunda-feira, março 23, 2009

Cecília & Nico

Cecília estava sozinha em casa quando ligou o rádio. O silêncio sempre a incomodou tanto que nunca se permitiu ficar segundos em suspenso. Seu medo era ouvir os próprios pensamentos, nem sempre agradáveis, muitas vezes acusatórios. Apertou o botão esperando que tocasse qualquer coisa, qualquer som, não interessava qual. Interessava que a música tocasse e a tirasse de seu mundo interior. Mas o aparelhinho, traiçoeiro, quis que Cecília ouvisse uma voz muito mais intrigante que a sua própria. O rádio tocou Nico. “Femme Fatale”. Nico e Velvet. Sombria, sexy, atormentada. Here she comes, you better watch your step/She’s going to break your heart in two, it’s true… Cecília sentiu Nico pegando seu coração com as mãos e apertando, como quem dissesse: “Você não pode escapar de sentir, minha cara. Não pode viver impunemente sem silêncio”. Cecília forçou a respiração, conseguiu escapar das mãos de Nico. Mas a voz… Cause everybody knows (she’s a femme fatale)/The things she does to please (she’s a femme fatale)/ She’s just a little tease (she’s a femme fatale)/See the way she walks/Hear the way she talks… Quanta dor aquela mulher carregava na voz, e Cecília só conseguia pensar que devia parar de fugir. Não tinha mais idade para alienar-se. Just look into her false colored eyes... Os olhos de Cecília arregalados, momento de epifania. Era alívio, era luz no fim do túnel, o recado de Nico era simplesmente “Pare de fugir”. Desligou o rádio e finalmente ouviu.

quinta-feira, março 12, 2009

Clichês da insatisfação

Não sabe se vai ou se fica
Se fica, quer ir
Se vai, quer ficar
Chora no avião porque está chegando
Chora mais ainda quando está partindo
É a incrível capacidade humana de querer o que não se tem
O prazer masoquista de sentir saudade
nostalgia
ansiedade
E todos esses sentimentos de coisas abstratas
O palpável não serve
O presente é só angústia
O passado é que era bom
O futuro será melhor
Errado, tão errado...
Erradíssimo!
Tsc. Humanos.

domingo, março 01, 2009

Operación Madalena

Querido diário,

Estou cansada do que tenho entre as pernas. Como algo pode ser tão inútil? Pior: como alguns se satisfazem com isso? Ao contrário das pessoas que conseguem dar sentido a este “estorvo” – algumas amigas chegam a fazer dinheiro - , eu sou radical. Não gosto, não quero e pronto. Isso não me pertence, parece que foi colocado em mim por algum ET quando eu era criança e fui abduzida. Gostaria de ter mais lembranças deste dia, deve ter sido divertido. Não para mim, mas para as malditas bichas alienígenas que modificaram meu corpo e me acrescentaram “isto”. Se soubessem os problemas psicológicos que me causaram... Toda vez que me olho nua no espelho me sinto um freak, um weirdo, e todos estes adjetivos do Radiohead. I don't belong here.

Tenho sonhos confusos, às vezes sonho que tenho barba. Outras que meu peito sumiu. Imagine... 400 ml de silicone não desapareceriam assim, de repente. Mas no meu sonho, costumo ficar mais despeitada que a Kate Moss. E olha que nem cheiro. Uma vez sonhei que me chamavam de Cauby Carlos. Pesadelo! Ele já morreu faz tempo. Hoje só existe Madalena, Madá, e ai de quem ressuscite Cauby Carlos, nome cafona dos infernos.

Quando estou assim, nervosa, tento relaxar com Almodóvar. Eu sei, é o clichê das bichas arrasadas – não o Almodóvar, mas ver Almodóvar quando se está deprimida. Mas, quer saber? Só pioro, e ainda mais que lembro de mamãe. Ela ficou de me dar dinheiro para a operação, mas empacotou antes, a danada. Acho que preferiu morrer de desgosto do que ver seu Caubyzinho – afe! – virar Madá. Mas, mamy, onde quer que você esteja, só tenho uma coisa a lhe dizer: já era. Não vou abandonar meu sonho, nem que você venha especialmente do inferno para me assombrar. Mamacita querida.

Bem, dear diary, cansei. Cansei de ser sexy, de ser homem, de tudo. Cansei de ser uma alma atormentada. Preciso de dinheiro para a operação e vou conseguir. Nem que eu tenha que fazer como algumas amigas e usar o “estorvo” para faturar.

Love,Madalena

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Pushing Daisies

Foi arrancada com tanta força da terra que sentiu frio nas raízes. A última coisa que se lembra é de seu desejo de cravar-se no solo, mas não de maneira definitiva. Queria ser um animal que não se apega, queria conhecer os campos que iam além de sua vista turva. Nos dias mais tristes, sentia água escorrendo-lhe das folhas, o caule doía lá dentro, e as raízes... Malditas, sempre presas, fincadas à terra molhada, impedindo-a de ir longe. Quando foi arrancada, sentiu o cheiro do frio, acreditou que seria levada para outros campos, mas quando deu-se por si estava em um pequeno vaso, e suas raízes compridas tocavam o plástico, e só via água se uma senhorinha grisalha a regasse. Reclamou tanto de estar presa ao solo, sem saber que pior do que isso era depender de um ser humano para viver.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

A fobia de Quito

Quito pensou três vezes antes de entrar na livraria. Sabia que, quando ultrapassasse a porta de vidro seria tomado por sentimentos confusos e autodestrutivos. As estantes e seus livros ameaçadores jogariam na cara dele toda sua futilidade. As linhas já escritas pelo homem desde que o mundo é mundo serviriam-lhe como decreto: tudo que merecia já foi escrito. Até o que não merecia também, e Quito não queria fazer parte do grupo dos escritores banais que escrevem o que não merece ser lido. A porta de vidro abria e fechava, com leitores entrando e saindo com pacotes nas mãos. O que tanto eles compravam? Que livros são esses que os fizeram tirar dinheiro do bolso? Quito já escreveu tanto, e só para si mesmo. Nunca teve culhão de publicar seus atabalhoados pensamentos, temperados pelos anos de solidão e esquizofrenia. No entanto, os livros abarrotados na estante lhe diziam, era possível vomitar idéias e deixá-las à mostra. E daí? Quem iria querer se ocupar de suas letrinhas? Quito estava parado, a porta abrindo e fechando, o segurança olhando de cara feia. Ele não iria conseguir. Deu um passo para frente. Deu dois. E a livraria o sugou para dentro. Estava feito, Quito parou perante as estantes, sentiu-se sufocado, humilhado, diminuído. Pensou no colo de sua mãe. Era tão mais fácil na infância, quando os livros eram seus companheiros, e não objetos para uma autoanálise. Resolveu buscar forças onde não tinha, pegou uma dezenas deles e foi para a fila do caixa. “Estes livros não vão mais judiar de mim”. Lembrou-se do velho ditado, se não pode vencê-los, junte-se a eles. Saiu da livraria carregado de volumes, de mãos dadas com Virginia Woolf, Mark Twain, Caio Fernando Abreu, Saramago e outros antigos sufocadores. Eram seus amigos, mais uma vez.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Primeiro a cópia

Fiz uma lista de músicas que eu primeiro conheci a cópia, depois a original. Eis:

1º lugar - a campeã é "Passenger", do Iggy Pop. Primeiro conheci a versão tosca do Capital Inicial. Eu sentia que a música tinha um quê, mas não sabia dizer. Gostava e não gostava. Até o dia em que ouvi a versão de Siouxsie and the Banshees e me apaixonei. Mas o susto ainda não tinha acabado. Caí de joelhos quando descobri a original do Iggy, de ar sombrio e envolvente.

2º lugar - "Starman", do Bowie. Mesmo caso acima. Lá nos idos anos 80, eu ouvia "Astronauta de mármore" do Nenhum de Nós e sentia um desconforto, uma dor. Quando dei de cara com a original, quase chorei. E peguei ódio da banda brasileira. Quanta audácia fazer uma versão do Bowie.

3ºlugar - Se bem que a terceira colocada é uma exceção. A versão do Nirvana para a bowieana "The Man Who Sold the World" é espetacular. Tão linda que eu prefiro o Kurt cantando, com aquela voz mole que derrete tudo.

4ºlugar - "And I love her", dos Beatles. Eu era criança quando ouvi "Eu te amo", com o Zezé di Camargo e Luciano. Ou seria Chitãozinho e Xororó? Whatever. Peguei tanto asco da música que quando ouvi a original já estava completamente envenenada. E olha que eu sou louca por Beatles.

5ºlugar - "Hey Jude" também sofreu do mesmo mal. Obrigada, Kiko Zambianchi, por estragar mais uma música dos Beatles em minha vida.

6ºlugar - "Let´s stay together", do Al Green. Lá estava eu, menininha de pé no chão, cantando "Vício fatal" da Rosana, quando algum adulto me mostrou a verdadeira. Too late, Marlene. Não adiantou. Até hoje, quando ouço "Let's stay together", me vem à cabeça os versos: "Quando a paixão é cegaaaa... A gente fica cega-a, cega-a. Seja bom ou mal, o vício é fata-al...". Rosana desgraçada.

Quem tiver exemplos, por favor, escreva aqui.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Mundo estranho

Já pararam pra pensar como é estranho essa coisa de ingerir alimentos? Quase tão estranho como expeli-los depois de algumas horas. Comer, assim como ir ao banheiro, é algo íntimo demais. Deveria estar restrito a cabines fechadas, isoladas do resto do mundo, como são os banheiros. Apesar de não ter problemas para comer em público, às vezes me pego pensando em como é estranho ir a restaurantes. Nele você expõe suas vergonhas levando o garfo à boca, mastigando a comida, escancarando para todos os dentes de alface, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Pior ainda quando algum desconhecido se senta à mesma mesa que você. Mastiga, mastiga, mastiga, engole. Constrangedor. E quando você cisma de reparar no prato dos outros, a coisa complica. Ainda mais se forem paulistas, que adoram colocar um salgadinho no meio da comida. Arroz, feijão, salada, bife e... risole. Ah, risole é demais. Eles gostam de coxinha também. Estranho.

Se vocês já estão me achando freak por pensar assim, tenho mais a dizer: também acho estranho dormir em público. Em quase dois anos dormindo em leitos na Dutra, percebi que dormir também é algo íntimo demais para ser feito de forma coletiva. Nos ônibus, então, é angustiante. Todos se sentam em suas poltronas, tiram os sapatos, colocam os pés pra cima - eca! - e dali a cinco minutos estão roncando. Ron-can-do! Constrangedor. No dia seguinte, ao chegar ao destino, o ônibus parece uma saleta do inferno. Gente acordando de cara amassada, com bafo de bode, baba no canto de boca e jeito lesado de quem não sabe onde está. O horror, o horror...

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Alô, Waldirene?

1: Seu problema é autoboicotismo crônico, senhor. 

2: E o que seria isso? 

1: Simples. O senhor sabota sua vida. Coloca empecilhos para justificar sua depressão – que eu inclusive acho que o senhor saboreia. 

2: Eu saboreio minha depressão?? 

1: Sim. No fundo, o senhor gosta de ser um loser. Chorar suas pitangas para os amigos, dizer-se impróprio para a vida. 

2: Mas eu sou mesmo. Minha vida não caminha. Vejo os outros correndo por fora. Eu não luto e nem tenho forças para tal. 

1: Loser, senhor. 

2: Pare de me chamar de loser! 

1: Não grite comigo, senhor. 

2: Eu quero morrer. E vou fazê-lo esta noite. 

1: Isso é egoísmo, senhor. Pense no sofrimento dos que vão ficar. 

2: Então vou para um mosteiro. Vou me enclausurar. 

1: É uma maneira covarde de fugir da vida, não acha? 

2: Ah, me ajude, então, o que eu devo fazer? 

1: Para começar, pare de ligar para mim. Eu não posso lhe ajudar. 

2: Mas a sua voz me acalma. 

1: O senhor não tem amigos? Precisa importunar uma operadora de telemarketing todos os dias? 

2: Você é minha única amiga, Waldirene. 

1: Eu nem sei seu nome, senhor. Com licença, preciso atender outra ligação. 

2: Alô??? Waldireneeee!

quinta-feira, janeiro 15, 2009

O Outro

No início de tudo, Y. tinha uma certa curiosidade em relação ao Outro. Natural, ambos estavam dividindo certas coisas e sentiam vontade de descobrir quem era o invasor. Sabia das inseguranças do Outro e as entendia como um processo que, um dia, chegaria ao fim.

O tempo passou, Y. foi se esquecendo do Outro e ambos pareciam estar seguindo suas vidas. Eventualmente ouvia opiniões de pessoas próximas sobre o Outro: Fulano o achava antipático, pois não conversava com ninguém; Beltrano o chamava de chato porque o Outro bebia pouco e ia sempre embora cedo. Um terceiro revelou ainda que o Outro tinha o “rei na barriga” e nunca nem lhe disse “bom dia”.

Y. nunca pensou que o Outro era tão odiado e ia ouvindo os relatos com um certo prazerzinho. Afinal, todos adoravam Y. e elogiavam sempre o fato de ele ser mais agradável que o Outro.

Mas o tal prazer de ser melhor deixou-o intrigado quando percebeu que o Outro continuava vigiando sua vida. De alguma forma, sentia-se encurralado por ele, como num estranho Big Brother virtual. Y. sabia que era observado, e que o Outro, inconscientemente, queria estar em seu lugar.

Hoje em dia, Y. espera que isso passe rápido. Ou que, quem sabe, ele e o Outro possam se tornar amigos. Porque, como diriam os besouros ingleses...

“Life is very short and there’s no time for fussing and fighting, my friend”.

terça-feira, janeiro 13, 2009

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Ei, você aí...

Para os meus amigos e leitores que ainda não tiveram a chance de abrir o "Não Abra":

Prometo aos que moram perto uma dedicatória carinhosa. E aos que moram longe, um email afetuoso.

Para quem quiser relembrar o dia 26/08/08, clique aqui!

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Suco de bobagens

Seu Ananias desceu as escadas lépido como um coelho. “Nunca me senti tão bem. Meu filho, me traz aqueles pesos que eu tô querendo ficar forte hoje”. Alberto estranhou o vigor do pai, minutos atrás estava prostrado no sofá vendo Discovery Channel. “You and me, baby, we’re nothing but mammals, so let’s do it like they do on the Discovery Channel”. “Pai, o que é isso??”. Seu Ananias estava cantando e rodopiando no meio da sala. Alberto se assustou e foi ter com a mãe na cozinha. Algo estranho estava acontecendo com seu pai. “Filhinho, me ajuda aqui. Estas panelas estão todas tortas, não servem mais”. Dona Rosinda estava agachada em frente ao armário da cozinha se livrando de todas as panelas de que cuidou carinhosamente por toda vida. “Mãe, como a senhora vai cozinhar se jogar todas as suas panelas no lixo?”. Dona Rosinda, sem parar o que estava fazendo, simplesmente disse: “E quem precisa comer aqui, meu filho? Cada um pode caçar sua própria comida. O homem tem garras e dentes pra quê, me diz? Além disso, eu acabei de concluir que todos podemos ser vegetarianos. Comer só frutas, verduras e legumes crus. Comer carne é crime, você já pensou?”. Alberto não conseguiu dizer uma palavra. Até porque sua mãe continuou a verborragia, “É crime, meu filho. São animais assa-ssi-na-dos. Morte matada. E eu não vou mais compactuar com isso. Vá. Vá chamar seu pai que ele vai se livrar dessas panelas para mim”. Alberto, achando que o mundo tinha enlouquecido, voltou para a sala e lá estava seu Ananias fazendo uma dança estranha de frente para a TV. “Albertinho, meu filho, descobri que minha dança sensual enlouquece as mulheres. Tá vendo ela ali? Não para de rir. Tá no papo”. Alberto foi conferir quem era a mulher na televisão que estaria louquinha pelo seu pai. Era a Xuxa, em uma reprise de um programa bizarro qualquer dos anos 80. Ela tomava um sorvete e olhava rindo para a câmera. “Veja, filho, veja como ela me quer”. E seu Ananias rebolava de frente para a tela, deixando o rapaz vermelho de vergonha. Alberto subiu as escadas, de dois em dois degraus. Precisava de alguém para compartilhar aquele inferno todo. O mundo enlouqueceu e ele era o único normal? Entrou no quarto de Alípio, o irmão mais novo. “Cara, tem uma coisa surreal rolando lá embaixo e você precisa...”. Não terminou a frase. Alípio estava pelado em frente a janela, balançando seus pertences para quem quisesse ver. “Caralho, sai daí, pelo amor de Deus. Até você?”. Alberto olhou para a rua e uma pequena multidão se aglomerava em frente à sua casa. “Tira! Tira! Tira!”, gritavam os passantes, em polvorosa. Alberto puxou o irmão e o enrolou em uma toalha. “Alípio, olha pra mim. O que está acontecendo?”. O garoto começou a rir. Riu sem parar, por minutos, deixando Alberto desesperado e irritado. Agarrou o irmão pelos braços e o sacudiu: “Puta que pariu, o que é isso?”. Ainda rindo convulsivamente, Alípio respondeu: “É o suco, cara. Você não tomou o suco?”. “Que suco??”. “O suco de laranja que eu fiz. Você não tomou, né? Hahahaha! Não mesmo, dá pra ver! Você tá puto, né, brother?”. E seguiu rindo até quase não se agüentar. Alberto entendeu, então, a razão para aquele surto coletivo em sua família. O irresponsável do seu irmão havia colocado ácido no suco de laranja. Seus pais tomaram e enlouqueceram. Alípio, claro, pirou. E Alberto agora era o único normal dentro de sua própria casa. Logo ele, o filho-problema, o doidão da família. Agora estavam todos provando do próprio veneno, e até mesmo gostando. Hipócritas. “Valeu, irmão. Agora quero ver todo mundo chafurdando no doce”, disse Alberto. Desceu as escadas, passou pelo pai, que naquele momento estava copulando com uma almofada, tal qual um cão, passou pela cozinha, onde sua mãe, deitada no chão, gritava de alegria que estava num mar de panelas, e foi para a rua. Voltou somente no dia seguinte, em silêncio, quando tomou café-da-manhã com a mãe e o pai, envergonhados. Alípio sorriu, maroto, e piscou para Alberto em cumplicidade.