domingo, novembro 25, 2012
The rope
quinta-feira, março 22, 2012
"Cause heaven's hard, black and grey..."
Não conseguia chorar. Não porque não sofresse ou não sentisse dor. Mas as lágrimas não brotavam, era algo fisiológico, talvez. Seu namorado não se conformava. No começo ele achava graça daquela menina que nunca derramava uma lágrima, mas depois virou uma obsessão. Queria que ela chorasse de qualquer maneira. “Não chora porque é seca, seca de amor”, dizia ele. Primeiro tentou surpreendê-la com cartas de amor desarvoradas, aquela coisa de “dou minha vida por ti” e outras bregarias. Ela se emocionou – pelo menos disse que sim -, abraçou-o, beijou-o, mas não chorou. O namorado mudou a tática e decidiu mostrar toda sua agressividade macha: brigava com ela à toa, ignorava-a, maltratava-a. Nem uma gota rolou daqueles olhos ingratos. No desespero começou a fazer-se de deprimido, disse que ia se matar. Chegou a pensar em fingir-se de morto para ver o que acontecia. E se morresse de fato, será que ela choraria? Arrasado, foi para casa decidido a não mais vê-la. A moça, vendo o que sua anomalia estava causando no pobre rapaz, resolveu tomar uma atitude drástica. Foi para a cozinha, muniu-se de um quilo de cebolas e pôs-se a cortar. Picadinhas, bem pequeninhas, as cebolas liberaram as toxinas que ela precisava. Dos seus olhos brotaram jatos d’água, como se o choro de toda uma vida se desprendesse de seu corpo. Correu para o computador. Ligou a câmera, colocou a música preferida do casal, e fez um vídeo, debulhando-se loucamente. O namorado, ao vê-la naquele estado, ficou tão feliz que correu para encontrá-la. Mas não suportou 15 dias de chororô ininterrupto e deu no pé na primeira oportunidade. Até hoje ela não conseguiu parar.
domingo, novembro 13, 2011
Tradição, família e propriedade
Casal sentado no sofá de casa após 4 garrafas de cerveja.
Deusilene: Já era, Joilson. Virei reaça.
Joilson: Que foi, Deusi? As cervejas já subiram pro cérebro?
D: Estou aqui pensando... Quando eu tinha 20 anos, eu deitava a cabeça no travesseiro e tinha insônia. Mas tudo bem, porque eu pensava: hoje tá uma merda, mas o melhor ainda vai acontecer. Agora minha insônia é um grande vazio de frustrações, o melhor não aconteceu e talvez nunca aconteça.
J: Falou a velha de 80 anos.
D: Tô quase por aí. Agora só faço julgar. Sou um poço de preconceito. Fico irritada com as periguetes de saia curta, os fãs de UFC, os playboys sarados, os hypes arrogantes, a juventude desmiolada se pegando descaradamente. Eu tinha a cabeça tão aberta...
J: Isso é maturidade, coração. Benvinda à vida adulta.
D: Não, Joilson, isso não pode estar certo. Sempre achei que o ser humano tinha que manter a mente fresca e o espírito livre. Agora caí na armadilha e virei uma velha. Tô quase levantando a bandeira da TFP...
J: Quando eu te conheci você gostava de beijar menininhas na night.
D: Minha night agora é dormir cedo. Aliás, 10 da noite, tá na hora. Buenas.
J: Peraí, Deusi, dá um beijinho aqui.
D: Escovou o dente?
terça-feira, maio 17, 2011
Feliz aniversário
quinta-feira, maio 05, 2011
Failure
segunda-feira, fevereiro 21, 2011
Self bullying
Levou um susto. Com o mundo girando e acontecendo a seu redor, estava há tempos surdo de sua própria voz. Cometeu a besteira de andar sozinho do metrô para casa em um dia de tempestade e não gostou do que ouviu. Sentiu-se o clichê mais óbvio quando chorou e as lágrimas se misturaram na chuva. Claro que os passantes o ignoraram, os cachorros vira-latas não cheiraram seus pés, os entregadores de papelzinho o abstrairam, ninguém sorriu ou sentiu pena dele. Só ele mesmo. Queria olhar-se à distância para ver quão coitadinho era, tão pequenino e sozinho no meio da multidão. Não deveria ter dado ouvidos aos próprios pensamentos, é tão mais fácil quando a vida segue seu rumo e ele é simplesmente levado, confortably numb. Confortably sorry, confortably painful. No fundo desejava ser ignorado, para poder chorar feliz o prazer de ser deixado de lado. Chegava a imaginar conversas alheias: "Olhe lá, o pobrezinho. Teve tudo e não soube aproveitar". Quem sabe não seria um gauche na vida como Carlos Drummond de Andrade? "Não seja ridículo, você não tem talento para isso". Sabe que é doente. Aguarda, ansioso, pelo dia em que ficará curado. Ou então - e essa possibilidade faz seus olhos brilharem - com o fim de seus dias na sarjeta, sujo e anuviado, ouvindo somente suas vozes internas .
quinta-feira, dezembro 02, 2010
Blá uma ova! ou O Japonês de Terno Puído (parte 3)
Sua cabeça ainda rodava quando fechou a porta de casa com a chave e todas as travas e trincos possíveis. A conversa com o Japonês de Terno Puído, - que agora tinha nome, Ishii Kondo -, naquele restaurante oriental malcheiroso da Paulista estava mais surreal do que filme de Buñuel e David Lynch juntos. Precisava ligar para alguém e contar tudo, mas duvidava que acreditariam. “É bem-feito”, pensou. Ninguém mandou reclamar tanto da vida, dizer que tudo era chato, ouvir “Tédio” do Biquíni Cavadão vinte vezes por dia e sentir pena de si mesma por ninguém querer ir com ela à mostra do Fassbinder. Agora, sim, sua vida estava uma loucura, “Valha-me minha santa Narcisa Tamborindeguy”.
Não conseguia parar de pensar naquele japinha assustador, o cabelo Jaspion e todo aquele papo de dossiê de 503 páginas. Sim, ela passou anos de sua vida sendo avaliada por ele. Pensando bem, 503 páginas era até bem pouco pelo tanto de tempo que o Japonês, ou melhor, Ishii Kondo, havia investido. “Eu merecia mais de mil páginas, pô”. Também, seus dias eram tão repetitivos que provavelmente o pesquisador deu “control V” e “control C” em várias partes. “Hoje ela acordou, comeu um queijo-quente de queijo minas, tomou um banho de 8 minutos, penteou a sobrancelha com o dedo molhado de saliva e foi trabalhar.” Não, o dossiê não poderia ter tais detalhes íntimos sobre sua vida dentro de casa. Ou poderia?
Não importa, o que importa mesmo é que resolveu não denunciar o japa à polícia e aceitou o convite para um encontro seguinte, agora com o mestre, onde mais detalhes da pesquisa seriam revelados. Putz, ela precisava ligar para alguém, defintivamente. Queria contar tudo, até mesmo para ter quem a salvasse caso sumisse no mundo. Na verdade queria contar mesmo pelo puro prazer de contar. Sim, finalmente sua vida era animada, ha ha. Uma lição para quem a chamou de sonsa, chatinha, desanimada, blá. Odiava quando era chamada de blá. “Quem é blá agora? Eu tenho um dossiê de 503 páginas e você? Nada!”.
Pegou-se rindo sozinha no apartamento trancado à chave, travas e trincos. Resolveu fuxicar cada canto à procura de câmeras, microfones, buracos suspeitos. Se o dossiê do Japonês de Terno Puído incluía suas intimidades indoor, ela tinha que saber como era vista. Até para passar um batonzinho e não soltar aqueles gases inocentes que não faziam mal a ninguém. Riu de novo. Enquanto revirava o apartamento, pensou no encontro com o mestre de Ishii Kondo. Era dali a dois dias. “Vou ligar pra alguém. Agora”.
