domingo, novembro 25, 2012

The rope


Cansada de encará-la no espelho, amarrei-a na cadeira do quarto e dei três nós bem apertados.

“Isso não vai adiantar, você sabe”, ela disse, rindo ironicamente na minha cara assustada.

Pela primeira vez na vida fui forte e a deixei lá, gargalhando às minhas custas, sussurrando minhas fraquezas com conhecimento de causa, jorrando por seus olhos o poder de me hipnotizar e petrificar.

Mas, não. Pela primeira vez, não me hipnotizei, me livrei das garras, deixei-a sozinha presa naquelas cordas porcamente amarradas com os nós de escoteiro que aprendi com meu pai.

Desci as escadas vermelhas do quarto mofado e pela primeira vez respirei. O peso havia deixado meu peito e me sentia tão leve que era capaz de planar pela praça. Sobrevoando as famílias felizes com suas crianças coradas, os velhinhos orgulhosos de seu passado jogando gamão com seus pares, os saudáveis desintoxicados correndo em volta do parque. Sempre os invejei, todos esses seres extremamente felizes, the grass is always greener, ela me dizia em seus tempos opressores.

Mas, agora, livre, posso ser feliz como eles. Não posso? Sem a consciência pesando 100kg, o medo da opinião alheia, a alegria vinda da ignorância. Porque nada como a ignorância para beatificar uma existência, nada como o nada. Questionamentos não levam a lugar algum.

Estava nua naquela praça ensolarada, sentindo-me pela primeira vez melhor do que a família corada, do que a velhinha da dentadura lustrada, do que a jovenzinha de bunda empinada. Eu era melhor, pela primeira vez despida da outra, da louca presa na corda com três nós porcamente amarrados. Ela poderia facilmente se soltar, desceria as escadas vermelhas com furor e me possuiria com o ódio vingativo dos traídos.

Pois eu nunca a deveria tê-la amarrado, ela que nasceu comigo e comigo cresceu, que mostrou suas garras desde aquele recreio no colégio quando a menina quis lanchar  comigo e eu disse: ‘quero ficar sozinha’. Como pode, eu era tão pequena e já queria o vazio, já queria a solidão masoquista. Era ela, naquele momento, mostrando suas então pequenas garras, que me aprisionariam por toda a vida.

E agora eu estava livre. Estava?
Estava feliz por estar livre. Estava?

Após um dia de pseudolucidez, subi as escadas vermelhas, entrei no cômodo mofado e ela estava lá, com o olhar triufante, já sabia desde o início que eu iria voltar.

“Me desamarra, vadia”.

quinta-feira, março 22, 2012

"Cause heaven's hard, black and grey..."

Não conseguia chorar. Não porque não sofresse ou não sentisse dor. Mas as lágrimas não brotavam, era algo fisiológico, talvez. Seu namorado não se conformava. No começo ele achava graça daquela menina que nunca derramava uma lágrima, mas depois virou uma obsessão. Queria que ela chorasse de qualquer maneira. “Não chora porque é seca, seca de amor”, dizia ele. Primeiro tentou surpreendê-la com cartas de amor desarvoradas, aquela coisa de “dou minha vida por ti” e outras bregarias. Ela se emocionou – pelo menos disse que sim -, abraçou-o, beijou-o, mas não chorou. O namorado mudou a tática e decidiu mostrar toda sua agressividade macha: brigava com ela à toa, ignorava-a, maltratava-a. Nem uma gota rolou daqueles olhos ingratos. No desespero começou a fazer-se de deprimido, disse que ia se matar. Chegou a pensar em fingir-se de morto para ver o que acontecia. E se morresse de fato, será que ela choraria? Arrasado, foi para casa decidido a não mais vê-la. A moça, vendo o que sua anomalia estava causando no pobre rapaz, resolveu tomar uma atitude drástica. Foi para a cozinha, muniu-se de um quilo de cebolas e pôs-se a cortar. Picadinhas, bem pequeninhas, as cebolas liberaram as toxinas que ela precisava. Dos seus olhos brotaram jatos d’água, como se o choro de toda uma vida se desprendesse de seu corpo. Correu para o computador. Ligou a câmera, colocou a música preferida do casal, e fez um vídeo, debulhando-se loucamente. O namorado, ao vê-la naquele estado, ficou tão feliz que correu para encontrá-la. Mas não suportou 15 dias de chororô ininterrupto e deu no pé na primeira oportunidade. Até hoje ela não conseguiu parar.