Às vezes eu olho tudo de longe, como se não fizesse parte do todo. Só assim consigo enxergar a importância das coisas. Sinto uma pena tão grande que tenho vontade de colocar todos no colo, cuidar e dizer: vai passar. It’s all so beautiful and so sad. E tão misterioso que vai além da minha compreensão. Se bem que às vezes sinto entender tudo, e tenho raiva por choramingar à toa. Se ao menos olhar tudo de longe me fizesse sair do lugar...
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sábado, maio 16, 2009
Epifania matinal de inverno
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terça-feira, agosto 05, 2008
Os olhos de Laura
Encostou o nariz naqueles cabelos macios e ruivos e teve a sensação da eternidade. “Quero morar aqui”, pensou, enroscando-se nos compridos fios dela. Os cabelos de Laura eram tão tenros quanto as carnes de suas coxas. Também rosas, também eternas. “Acho que ela nunca vai envelhecer”. Em seus devaneios de amor, pensava em Laura como um ser atemporal, que tem o cheiro do universo. Seus gestos também não faziam parte de tempo algum. Olhava para a ruiva e a via flutuar. Sentia-se imensamente inferior àquela mulher divinal, mas quando tocava naqueles cabelos macios era como tivesse respostas para um não sei o quê. Laura era o sim quando pensava no não, era a tranqüilidade quando se perdia em ânsias. A sabedoria que vinha das madeixas ruivas e perfumadas, da carne macia e sã, dos olhos de metáfora e mistério. Nunca entendia os olhos de Laura à primeira vista. Laura era mulher para uma segunda vista, ininterrupta.
sexta-feira, julho 11, 2008
O grito de Joana
O. fez um esforço tão grande para abrir os olhos. Pareciam colados, como se há muito não ousassem piscar. Puxou pela memória e não se lembrou da última cena que viu antes de sentir as pálpebras descerem seu pano preto, indicando o fim do espetáculo. O. sentia que, se quisesse, poderia abrir os olhos de novo. Mas o grito de Joana ecoou em seus ouvidos como aviso, era um grito sem nexo e gutural, mas ele o ouviu como prenúncio. Fazia tempo que aquele grito havia saído da boca de Joana, mas, O. sabia bem, vozes são eternas, repetem-se exaustivamente na cabeça de quem tapa com as mãos os ouvidos.
"Não abra os olhos", era o significado daquele grito, vindo daquela Joaninha espevitada que voejou-lhe a vida por muitos anos e agora vinha pousar-lhe no nariz. Mas O. tinha os olhos fechados há muito, tanto que nem lembrava o porquê. Ignorou o ruído joanístico e de um só lampejo, escancarou os olhos até quase enroscarem-se cílios e sobrancelhas.
Neste exato momento entendeu o desespero de Joana, ela gritou faz tanto, mas o tempo passou e a voz dela tinha razão. Assombrado com o que viu, O. sentiu a vista turvar-se de lágrimas, até que fechou os olhos. Desta vez, por tempo indeterminado e por escolha própria: nunca mais iria enxergar, fosse o que fosse. Joana estava certa. "Matenha-os fechados. Mantenha-se são". Era o que dizia para O., que a obedecia cegamente, em pleonasmo.
"Não abra os olhos", era o significado daquele grito, vindo daquela Joaninha espevitada que voejou-lhe a vida por muitos anos e agora vinha pousar-lhe no nariz. Mas O. tinha os olhos fechados há muito, tanto que nem lembrava o porquê. Ignorou o ruído joanístico e de um só lampejo, escancarou os olhos até quase enroscarem-se cílios e sobrancelhas.
Neste exato momento entendeu o desespero de Joana, ela gritou faz tanto, mas o tempo passou e a voz dela tinha razão. Assombrado com o que viu, O. sentiu a vista turvar-se de lágrimas, até que fechou os olhos. Desta vez, por tempo indeterminado e por escolha própria: nunca mais iria enxergar, fosse o que fosse. Joana estava certa. "Matenha-os fechados. Mantenha-se são". Era o que dizia para O., que a obedecia cegamente, em pleonasmo.
sexta-feira, maio 09, 2008
Ensaio sobre a conjuntivite
1º dia - acorda com os olhos vemelhos. Acha que é uma irritação boba e pinga soro.2º dia - a irritação piora. Pinga água boricada. No trabalho, tenta entrevistar algumas pessoas, mas sente que está sendo evitada.
3º dia - olho fica mais vermelho e inchado. Médico diz que é uma conjuntivite viral e contagiosa. Ela percebe que é sério quando ele se nega a apertar sua mão.
4º dia - trabalhando de casa para não infectar os colegas, sente que seus pais não querem beijá-la.
5º dia - o namorado não a visita e deseja melhoras através da webcam. Uma secreção começa a escorrer de seus olhos.
6º dia - decide ficar no quarto, afundada nos filmes. Sente tonturas. Fica tocada com a solidariedade da mãe, que começa a deixar a comida sobre a bancada.
7º dia - depois de um cochilo, percebe que fecharam a porta do quarto. Seu corpo está quente. Febre alta. Olha-se no espelho e vê que o outro olho também fora tomado pelo mal. Sofre delírios.
8º dia - dorme o tempo todo, enrolada no cobertor. É um casulo. A secreção dos olhos escorre para todo o corpo. Pensa que seria a secreção metamórfica, moldando-a com o casulo para a nova vida.
9º dia - não se levanta mais para pegar a comida. Se bem que há tempos ninguém deixa nada para ela. Sente a umidade incomodando-a dentro do casulo. Seus ombros doem de tanto ficar deitada. "Deve ser as asas despontando".
10º dia - Surpreende-se com a mãe na cabeceira da cama: "Chega de hibernar". Pega o espelho e aponta para a filha. A conjuntivite tinha sarado. Ela sai debaixo das cobertas, empapadas de suor. Não tem asas nas costas. Suas pernas continuam sendo pernas, e não patas. Vendo que não se transformou em borboleta alguma, dá um beijo na mãe e vai tomar um banho, como um ser humano qualquer.
domingo, abril 27, 2008
Ilusão de ótica

Tinha obsessão pelo pôr-do-sol, e seu quarto impregnado de fotografias contra-luz provavam isso. Quando estava muito angustiada, ia à praia sozinha vê-lo ir embora. Irritava-se um pouco com as palmas dos hippies e hypes de Ipanema, então ia para a Barra da Tijuca, que não tinha o Dois Irmãos para interromper.
Gostava de fixar o olhar no sol até chorar, enquanto sentia o vento de maresia envolvendo-lhe o corpo. Quando já estava cega pela claridade, apertava as pálpebras com força, ao mesmo tempo em que seus dedos dos pés agarravam-se aos grãos de areia, cavando buracos ondulados.
Era uma mania solitária e nunca contou a ninguém. Quem convivia com ela sabia que costumava ir à praia nos fins de tarde, mas não imaginavam que fosse pelo sol. Ela, por sua vez, não fazia questão de ninguém por perto. Estava tão envolvida em seu mimetismo solar que solidão era o que menos sentia naquele momento.
Num destes fins de tarde, os olhos já ardendo, sentiu uma vontade irresistível de voltar-se para o mar. Dentro d'água, um rapaz acenava em sua direção. Nunca o vira antes, o aceno não devia ser para ela. Mas ali por perto não tinha mais ninguém. Sim, era para ela.
Resolveu não dar atenção, podia ser um louco qualquer. Afogando-se, ele não estava, pois acenava com apenas uma das mãos e, mesmo à distância, ela conseguia identificar no estranho um sorriso de canto de boca. Decidiu continuar olhando o sol. Mas a imagem do rapaz, fixa na retina, parecia dançar no meio da bola de fogo. Irritou-se, ele atrapalhara tudo. Voltou-se novamente para o mar e lá estava ele, ainda acenando, ainda com o maldito sorriso no canto da boca.
Levantou-se, um pouco cega, e resolveu tirar satisfação. Mas ao aproximar-se da beira d'água, ele deu um mergulho e desapareceu. Ela o xingou em pensamento e voltou para a sua canga. Ficou ainda alguns minutos fitando a água, mas nada dele aparecer. Cansou e decidiu retornar ao sol, que estava sempre ali, não acenava e nem mergulhava. Estava se pondo, como em todas as tardes.
Quando as lágrimas já estavam rolando, os pés agarrados à areia, o vento tomando-lhe inteira, angustiou-se. Quis olhar o mar novamente. Tentou controlar-se, não queria ver o estranho, ele incomodava sua paz. Com uma certa dose de masoquismo, porém, virou a cabeça para a direção do infinito, e lá estava. O tonto acenando, incansável. Tapou os olhos com as mãos, mas a imagem dele não sumia, vagava na dimensão escura misturada a objetos geométricos. Por entre os dedos entreabertos, viu que ele estava fazendo sinais.
Como que hipnotizada, ela seguiu as próprias pegadas em direção ao mar. O estranho, sorrindo agora de boca inteira, continuava chamando-a. Zonza depois de uma tarde inteira vidrada no sol, deixou-se cair na água gelada. Ele esticou a mão e puxou-a para si. Abraçou-a e mergulhou.
Depois deste dia, nunca mais se teve notícias dela. Amigos mais saudosos eventualmente olham para o céu, nos fins de tarde. Alguns arriscam dizer que, depois de alguns minutos, conseguem vê-la acenando, flutuando no meio do sol, ao lado de um rapaz estranho. Mas logo abaixam o olhar: é só ilusão de ótica.
sexta-feira, fevereiro 22, 2008
Barbara
Sem saber o motivo, começou a pensar no próprio nome. Barbara. Repetiu-o algumas vezes, estranhando a sonoridade. Barbara. Barbara. “Nome bruto”, pensou. Olhou-se no espelho e encarou a imagem. “Então essa sou eu”. Não se reconheceu. Reparou em cada detalhe do rosto refletido: olhos, nariz, boca. O buraquinho no lado esquerdo da bochecha. Esta pessoa era ela, assim como era ela o nome estranho repetido diversas vezes. Mas nada lhe era familiar, nem o nome, nem a imagem. Em seu mundo interior, Barbara era uma figura sem forma, uma sensação, um buraco negro que ora se esticava, ora se encolhia. Não tinha rosto, muito menos uma palavra que a designasse. Ela era seus sentidos, era o que enxergava, ouvia, pegava, comia e cheirava. O espelho lhe mostrou um ser desconhecido. Um ser chamado Barbara, que, por acaso, ela era mesma. Muito prazer.
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
Pode ser a gota d'água
Quando o ar lhe pesava, mergulhava a cabeça n’água e via tudo com uma clareza estarrecedora. De repente, tudo fazia sentido, compreendia os pormenores secretos que a atormentavam, olhava de cima para sua própria vida. Como se ela não fosse ela, fosse outra a olhar a vida alheia. Enxergava cada pedaço com frieza médica, juntava os fios soltos, identificava traumas, apontava soluções, percebia os inimigos. Pesava o necessário e o desnecessário, mesmo sabendo que os conceitos de necessidade mudam sempre. Cristalino, cristalino, como nunca pensara nisso antes? O sentido é que não há sentido, somente o objetivo. Viver seguindo o um, sem buscar o outro.Percebendo-se afogada, chorou. Cada lágrima pode ser a gota d’água. Um dia vai transbordar tudo de uma vez, ela pensa, submergindo a cabeça.
"Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta..."
Olha a gota que falta..."
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