quarta-feira, junho 04, 2008

Devaneios de Humbert Humbert


Primoroso na fotografia, na escolha das cenas e dos atores, “Lolita” de Stanley Kubrick (1962), foi injustiçado nas severas críticas à estreante Sue Lyon, que para muitos, não conseguiu emanar a sensualidade digna de uma Lolita. O excesso de humor empregado por Peter Sellers também não transformou as cenas de Quilty em um pastelão incoerente com o texto de Nabokov, como se falou na época. O pecado de Kubrick, se é que se pode chamar uma escolha artística assim, é apenas um: não mostrar os devaneios da mente insana de Humbert Humbert. Afinal, o intelectual pedófilo foi trilhando, desde sua chegada à cidade de New Hamsdale, um caminho tortuoso até a total insanidade. Desde que se deparou com aquela menina de 12 anos tomando sol no jardim com seus óculos em forma de coração, a mente daquele homem modificou-se por completo. Humbert tornou-se obcecado por Lolita e fez de tudo para tê-la: casou-se com a mãe da garota, planejou a morte da mulher, que acabou acontecendo acidentalmente e depois se apossou da ninfeta de forma tirânica. Como um inspetor severo de um colégio religioso, impediu-a de ter namorados, impunha-lhe horários e perseguia-a às escondidas. Lolita o traía com outros homens? Conseguia aquela criança enganá-lo apesar de todo o controle? Humbert entra em paranóia.

No livro, Nabokov deixa em aberto, ao longo das páginas, se a desconfiança do protagonista é real ou fruto de sua produtiva imaginação. E é aí que Kubrick poderia explorar em grande estilo. Esmiuçar o suspense e o mistério da forma que fez em “De olhos bem fechados”, intercalar imagens fantásticas como em “2001 – Uma odisséia no espaço”, abusar da imperiosidade musical para pontuar as situações mais bizarras, como em “Laranja Mecânica”. Dar um toque David Lynch às insanidades de Humbert (que me perdoem os anti-Lynchanos...), que cisma com a perseguição de Quilty, vendo-o em todos os lugares; que vê em cada rosto masculino uma ameaça a sua querida Lo. Humbert vê coisas, sente-se encurralado. Prato cheio para cenas a la “Cidade dos sonhos” e “Coração Selvagem”.

Mas esta opção do cineasta obviamente não diminui a importância da obra, nem sua beleza, nem seu lirismo cínico. O cineasta escolheu perfeitamente as cenas que deveria adaptar do livro para a película, inclusive a decisão de colocar na primeira cena a morte de Quilty e a partir daí a volta no tempo. O devaneio humbertiano é apenas uma sugestão que eu sopraria ao pé do ouvido de Kubrick no momento primeiro da criação das cenas. Como um anjinho demoníaco pedindo algo mais marginal. Como uma Lolita.
* texto de 2004 publicado no meu finado blog Movieola

4 comentários:

bruna paixão disse...

adoro seus posts sobre cinema!

Mariana Valle disse...

Adorei. Ainda não tinha lido esse post. Você assistiu a versão cinematográfica de 1997, dirigida por Adrian Lyne, com Jeremy Irons? Sou suspeita pra falar, porque adoro esse ator, mas acho que ele mandou muito bem. A Lolita de Dominique Swain também foi um espetáculo. Agora vou assistir a primeira versão (de Kubrick) para comparar.
Continue postando, Baby! E visitando meu blog! Postei lá umas reflexões sobre "sua" novela...
Bjs,
Poppins

Andréa de Freitas Machado disse...

Menina, teu texto é primoroso e suas observações sobre cinema são pertinentes, aguçadas e brilhantes. Você sabe que é uma jornalista muito, mas muito acima da média né? Sim, eu sei que você sabe. Beijos

Anônimo disse...

necessario verificar:)