domingo, julho 06, 2008

Pi-pi-pi-pi!

Começou numa noite qualquer. O barulho do videogame indicava que o vizinho tinha ganho um brinquedinho novo. Novo entre aspas. Era brinquedo velho mesmo, pois o som era de Atari. Vanderson conhecia muito bem aqueles ruídos que remetiam à sua infância. Divertiu-se muito com eles, mas ouvi-los aos 30 e poucos anos, na hora de dormir, era um pé-no-saco. Pi-pi-pi-pi! Vanderson tapava a cabeça com o travesseiro. O vizinho estava jogando River Raid. Aquele do avião, sabe? E o pior é que o vizinho batia toda hora. Só de ouvir o barulho, Vanderson conseguia vizualizar o percurso. Desvios, tiros nos inimigos, fuel. Que suplício era o fuel. Pi-pi-pi-pi! "Burro!", pensava Vanderson, cada vez que o vizinho batia na ponte. Começou a chamá-lo de "O barbeiro do Atari".

As noites se seguiram e o barbeiro continuou com suas manobras. O vizinho jogava Enduro, Pitfall, Space Invaders. Vanderson não conseguia controlar a própria mente e jogava contra o adversário no maravilhoso mundo de sua imaginação. Os barulhinhos viraram uma psicose, ia deitar esperando os ruídos começarem. Preferia o River Raid por conta do barulho do fuel, ou até mesmo o Enduro, pois o ronco contínuo do carrinho de corrida o fazia dormir como um anjo. Vibrou quando o barbeiro do Atari investiu no jogo do ladrãozinho.

Meses se passaram e aquela rotina noturna se repetiu.

Numa noite, entretanto, não houve barulho. Vanderson rolou na cama, virou de um lado e do outro, até chegar à triste conclusão: estava viciado no Atari do vizinho. Precisava do pi-pi-pi, das explosões, dos barulhos de tiro. Maldito! Que fazia o vizinho que não estava mais jogando videogame? Vanderson resolveu bater em sua porta após uma semana de insônia. Ninguém atendeu, então deixou um bilhete. "Caro vizinho do 506, Já leu o Pequeno Príncipe? Tu és responsável por aquilo que cativas! Se não for pedir muito, por favor, volte às noites de Atari. Muito agradecido. Vanderson do 507." A noite seguinte foi de ansiedade. Será que o amigo desconhecido resolveria o problema? Mas nada aconteceu. Vanderson ouviu somente um barulho de cama batendo na parede. E não dormiu, mais uma vez.

No dia seguinte, ao pegar o jornal embaixo do tapete, deparou-se com um pacote. Preso a ele, um bilhete: "Caro Vanderson do 507. É com prazer que venho lhe informar que minha vida mudou. Arranjei uma namorada. Não preciso mais do Atari. Se você sente tanto a falta do videogame, aqui está. É meu presente para você. Aproveite." Vanderson sorriu. Seus problemas estavam resolvidos. Mas entrou em pânico ao deitar-se. Se jogasse o videogame, não dormiria. Se não jogasse, não ouviria os tão esperados ruídos, e também não dormiria. Concluiu que seu destino deveria ser o mesmo do vizinho. Precisava arranjar uma namorada.

Ela, sim, poderia brincar com o Atari e fazê-lo dormir como um anjo novamente.

7 comentários:

Anônimo disse...

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA...

Muito boNN!!!

A. Cherri (ANONIMO)

Anônimo disse...

Pensei que tivesse quebra de linha... tsc tsc.

Mariana Valle disse...

Muito bom, baby!
Bjs,
Mari

Edu disse...

Quando vi o título achei que era o Chaves chorando, mas é muito melhor do que isso!

introspective disse...

Excelente, Maitê! Adorei o final! ;)

André Luiz disse...

Barbarella, tu arrebenta!
Vanderson é tudo huahuahuahuahauh!
bjo

Francisco Jamess disse...

huauhahuauahuahuhahua

muito bom. você tem sacadas geniais e humor inteligente.

adorei.