sexta-feira, setembro 22, 2006

Lições do Vaticano

Olhou aquela multidão se dirigindo à Praça de São Pedro. "Droga! Hoje é quarta, dia de Papa", pensou. Mas resolveu seguir em frente mesmo assim. Seu último dia em Roma, não teria como não ir ao Vaticano. Ao chegar na praça, irritou-se com a massa fanática aguardando ansiosa a aparição do bom velhinho com cara de mau (sim, Bento XVI assusta). Legiões de jovens segurando bandeirinhas, entoando cânticos em línguas diversas. A irritação inicial se transformou num imenso sentimento de pena. Aquelas pessoas estavam ali não porque eram felizes, pensou. Mas porque precisavam de ajuda. Olhou para o palco, que era enorme, mas que de tão distante parecia pequenino. Viu aleijados em suas cadeiras de roda esperando pelo grande momento. Emocionou-se e pensou que talvez tirasse alguma lição desta manhã. Seu coração andava muito amargo.

Os minutos passavam, a multidão se agitava. Ela percebeu que alguns começaram a pular as grades laterais, e assim chegavam quase na frente do palco, sem precisar passar pelo sufoco. Seu jeitinho brasileiro gritou-lhe que aquela era a solução, e começou a imitar os fiéis. Saltou várias cercas de ferro até chegar à última, onde havia um paredão de guardas. Um deles olhou para ela e começou a puxar assunto. Era um cara bonito, italiano típico, de Nápoles. Biaggi, quando soube que ela era do Brasil, deu um sorrisinho safado. "Aposto que ele está com más intenções", pensou ela.

A conversa dos dois seguiu animada, numa língua estranha que misturava português, italiano e inglês. Descobriram que depois da missa iriam para o mesmo lugar, Termini. Ele, para pegar seu trem para a cidade natal. Ela, para voltar ao albergue, que ficava perto da estação. "Vamos embora juntos", disse Biaggi. Até que a gritaria os interrompeu: era o Papa, ele ia passar. Sozinha entre as grades, praticamente num camarote, ela viu a branca figurinha desfilar no papamóvel. Tirou fotos borradas, que sua mãe iria gostar. Uns adolescentes resolveram se aboletar ao lado dela, e Biaggi os expulsou com toda sua autoridade de guarda do Vaticano. Ela riu: estava vendo o papa de "camarote" privativo. Só faltava cerveja e abadá.

Quando a missa acabou, os fiéis começaram a se dirigir à Catedral. O italiano olhou para ela e ordenou (o que se esperar de um italiano, ainda por cima policial?): "Você vai para a igreja, faz sua visita e depois nos encontramos aqui às 13h, quando acaba meu turno". Sí, segnore, capisco! Ela foi à igreja, tirou mais fotos para a mãe. Pietá. Túmulo de São Pedro. Capelinhas. Não conseguiu rezar.

Às 13 horas, foi ao encontro de Biaggi. Ela estava apertada, queria fazer xixi. Ele a colocou num banheiro reservado do Vaticano. Quando ela saiu, ele a surpreendeu com um beijo roubado, e quase foram flagrados por outros guardas. "Agora é que vou para o inferno", pensou ela. De mãos dadas, ambos se dirigiram para o ponto de ônibus. A idéia dela era beijá-lo durante o percurso até Termini e depois dizer adeus. "Baccino, baccino", pedia ele. Ela achava graça do rapaz, tão novinho, 23 anos e já cheio de poder. Chamou-o de bambino, ele prometeu mostrar-lhe que não era tão bambino como parecia. Passou a viagem de ônibus tentando convencê-la de ir para o hotel dele. "Nem conheço você", ela dizia, tremendo com os beijos que ele lhe dava. Quase chegando em Termini, ele argumentou (na estranha língua que ambos falavam) que era o último dia dela na Itália, que os dois nunca mais iriam se ver e que ela não era mais uma menina para ficar tão cheia de dedos. Isso feriu seu orgulho de mulher independente e bem-resolvida.

Ao descerem no terminal, seguiram de mãos dadas até o hotel. Depois de uma tarde feliz, despediram-se. "Buona vita, brasiliana". "Buona vita, bambino".

4 comentários:

Samuel Tonin disse...

ai... ai... :)

Clá disse...

Gli italiani... Tanto belli e tanto cani...
Ainda bem que vc pôs esta ótima história no "papel", hehehe
Baci, amica!

Anônimo disse...

Italia!!!!

Anônimo disse...

Oi! Encontrei sem querer esse seu blog e gostei.
Os policiais italianos são irresistíveis...
Bruna