Dentro da bolsa, o caos. A chave de casa que enrosca no crachá, que prende na pinça, que agarra o elástico de cabelo, que se embola no porta-moedas. É sempre assim: toda vez que vai abrir a porta, ela pega a chave e vem tudo junto. Xinga deus e o mundo, jura que vai separar cada coisa em bolsinhos. Mas, no dia seguinte, é a mesma coisa.
Pior é quando está entrando no ônibus. Seu celular cisma em tocar, e ela, afobada, não sabe se atende o aparelho, se paga a passagem, se segura as várias bolsas que sempre carrega ou se segura a si mesma para não cair, já que os motoristas cariocas estão sempre prontos para tirar o pai da forca.
Sua vida é assim mesmo. Enrolada, complicada, um prato cheio para a hiena Hardy entoar seu famoso bordão. Oh, vida, oh, azar, ela mesma repete, às vezes, ao tropeçar nos buracos das calçadas. Suas pernas são pintadas de manchas roxas, resultado de pancadas dentro do ônibus – os motoristas, sempre eles – ou de manobras radicais que faz para entrar nas kombis. Sempre jura que nunca mais vai entrar nestas latas velhas de sardinha humana. Mas, no dia seguinte, é a mesma coisa. Acaba enrolando-se também com outros passageiros, naquele espreme-espreme dos infernos.
Certo dia, sentada na janela, foi obrigada a dar lugar para uma senhorinha, que tentava subir na kombi com um tabuleiro. “Segura aqui, minha filha. É lasanha. Eu que fiz”. Segurou o tabuleiro quente enquanto a velhinha se sentava no melhor lugar, fazendo-a colar coxas com o motorista (ela odeia colar coxas com desconhecidos). E seguiram assim até ela devolver a lasanha, já que a velhinha folgada queria mesmo é ficar de mãos livres vendo a vista lá fora. Outro dia, teve que ouvir uma ladainha bizarra de mais uma senhora, que contava as aventuras amargas que teve com a patroa. “Falei pra ela: só de raiva vou botar seu nome na minha filha, pra eu nunca mais esquecer da senhora”. E assim a pobre criança foi batizada de Elza, o nome da maior inimiga da mãe.
Enrolada dentro da bolsa, achincalhada nos ônibus e espremida em kombis, ela quer se libertar. As pequenezas da vida a afrontam, atrapalhando o que chama de suas “causas nobres”.
quinta-feira, maio 15, 2008
sexta-feira, maio 09, 2008
Ensaio sobre a conjuntivite
1º dia - acorda com os olhos vemelhos. Acha que é uma irritação boba e pinga soro.2º dia - a irritação piora. Pinga água boricada. No trabalho, tenta entrevistar algumas pessoas, mas sente que está sendo evitada.
3º dia - olho fica mais vermelho e inchado. Médico diz que é uma conjuntivite viral e contagiosa. Ela percebe que é sério quando ele se nega a apertar sua mão.
4º dia - trabalhando de casa para não infectar os colegas, sente que seus pais não querem beijá-la.
5º dia - o namorado não a visita e deseja melhoras através da webcam. Uma secreção começa a escorrer de seus olhos.
6º dia - decide ficar no quarto, afundada nos filmes. Sente tonturas. Fica tocada com a solidariedade da mãe, que começa a deixar a comida sobre a bancada.
7º dia - depois de um cochilo, percebe que fecharam a porta do quarto. Seu corpo está quente. Febre alta. Olha-se no espelho e vê que o outro olho também fora tomado pelo mal. Sofre delírios.
8º dia - dorme o tempo todo, enrolada no cobertor. É um casulo. A secreção dos olhos escorre para todo o corpo. Pensa que seria a secreção metamórfica, moldando-a com o casulo para a nova vida.
9º dia - não se levanta mais para pegar a comida. Se bem que há tempos ninguém deixa nada para ela. Sente a umidade incomodando-a dentro do casulo. Seus ombros doem de tanto ficar deitada. "Deve ser as asas despontando".
10º dia - Surpreende-se com a mãe na cabeceira da cama: "Chega de hibernar". Pega o espelho e aponta para a filha. A conjuntivite tinha sarado. Ela sai debaixo das cobertas, empapadas de suor. Não tem asas nas costas. Suas pernas continuam sendo pernas, e não patas. Vendo que não se transformou em borboleta alguma, dá um beijo na mãe e vai tomar um banho, como um ser humano qualquer.
segunda-feira, maio 05, 2008
Eterno crepúsculo

Esses dias revi "Crepúsculo dos Deuses", um de meus filmes preferidos. Mais uma vez, chorei e me impressionei. Abaixo, segue uma resenha que escrevi sobre o filme em 2004, para o meu finado blog Movieola.
"Dizer que “Crepúsculo dos Deuses”, de Billy Wilder, é uma obra-prima atemporal não é novidade alguma. O filme, de 1949, soa atual até hoje não só pelas imagens bela e cuidadosamente captadas, como pelos seus diálogos vivazes. Mas existe na obra uma beleza escondida, detalhes de making of que lhe dão um toque ainda mais humano. Comecemos primeiro falando do óbvio para depois chegar ao curioso.
“Crepúsculo” impressiona logo na primeira cena, a dos créditos mesmo: a câmera, em movimento, acompanha os carros que seguem para o Sunset Boulevard número 10.000. Os créditos vêm e vão no corre-corre dos veículos, compassados perfeitamente com a música incidental. Quando a câmera entra naquela casa misteriosa, encontramos Joe Gillis (William Holden) morto boiando na piscina. Primeiro, o vemos de cima, junto com policiais e repórteres que se aglomeram. Depois, o toque de gênio: avistamos o corpo de frente, como se estivéssemos mergulhados encarando o defunto, que bóia de boca e olhos abertos. Tal cena hoje em dia pareceria, no máximo, interessante, pois imagens subaquáticas são bastante comuns. Mas no fim dos anos 40 não existia tecnologia suficiente para se filmar dentro d’água, e o diretor Billy Wilder encontrou uma solução perfeita: colocou um espelho no fundo da piscina e captou a imagem refletida por ele. O resultado foi um take perfeito e ousadíssimo para a época.
Outra característica que atesta a atemporalidade do filme são os diálogos. Parece que o protagonista Gillis conversa com sua quase-amante Betty Schaefer (Nancy Olson) em pleno século XXI. O drama vivido por eles é mais que atual: um homem que se vende em troca de dinheiro e de uma vida requintada; uma moça jovem e ambiciosa que sonha com o sucesso profissional e acaba se apaixonando pelo galã marginal. Mais “Julia Roberts”, impossível. Só que numa versão mais inteligente. A única personagem que parece datada, e é assim propositadamente, é a diva do cinema mudo Norma Desmond (Gloria Swanson). Ela contrata o roteirista Gillis para escrever seu novo filme e lhe fazer companhia, mas acaba se apaixonando por ele e tenta comprar seu amor com roupas, dinheiro e jantares. Ao contrário da sagacidade dos personagens de Nancy e Holden, Norma parecia ter saído direto das telas de cinema mudo, pelo seu modo de falar, gesticular e olhar exagerados. Ela já era datada nos idos dos anos 40, uma peça de museu. Ou como dizia Gillis, fazia parte do grupo de bonecos de cera.
É aí que chegamos à parte mais humana do filme. A atuação de Gloria Swanson foi tão real talvez porque ela estivesse representando a si mesma. Assim como Norma, Gloria também era uma diva do cinema mudo esquecida com o surgimento do cinema falado. E seu mordomo no filme, Max, interpretado por Eric Von Stroheim, era um diretor das antigas que havia descoberto Norma no início da carreira. Tal qual aconteceu com Gloria Swanson quando nova. Billy Wilder também teve a delicadeza de colocar na película a atuação pequena, porém marcante do também diretor Cecil B. de Mille, que fez o papel dele mesmo. E as cenas em que Norma foi à Paramount achando que iria estrelar um filme novamente foram feitas no próprio estúdio, no set de filmagens de Sansão e Dalila. Quando a estrela ofuscada recebia mais uma vez o jato dos refletores e todos aqueles funcionários – os mais jovens e os mais velhos, que a conheciam – começaram a aplaudi-la, aquilo não era ficção. As palmas eram reais, e provavelmente a lágrima que marejou os olhos de Norma era na verdade da própria Gloria.
São apenas algumas dentre outras várias curiosidades desta obra, vencedora de três Oscar (roteiro, trilha sonora e direção de arte)."
Filmes bons nunca envelhecem, era o título do antigo texto.
domingo, abril 27, 2008
Ilusão de ótica

Tinha obsessão pelo pôr-do-sol, e seu quarto impregnado de fotografias contra-luz provavam isso. Quando estava muito angustiada, ia à praia sozinha vê-lo ir embora. Irritava-se um pouco com as palmas dos hippies e hypes de Ipanema, então ia para a Barra da Tijuca, que não tinha o Dois Irmãos para interromper.
Gostava de fixar o olhar no sol até chorar, enquanto sentia o vento de maresia envolvendo-lhe o corpo. Quando já estava cega pela claridade, apertava as pálpebras com força, ao mesmo tempo em que seus dedos dos pés agarravam-se aos grãos de areia, cavando buracos ondulados.
Era uma mania solitária e nunca contou a ninguém. Quem convivia com ela sabia que costumava ir à praia nos fins de tarde, mas não imaginavam que fosse pelo sol. Ela, por sua vez, não fazia questão de ninguém por perto. Estava tão envolvida em seu mimetismo solar que solidão era o que menos sentia naquele momento.
Num destes fins de tarde, os olhos já ardendo, sentiu uma vontade irresistível de voltar-se para o mar. Dentro d'água, um rapaz acenava em sua direção. Nunca o vira antes, o aceno não devia ser para ela. Mas ali por perto não tinha mais ninguém. Sim, era para ela.
Resolveu não dar atenção, podia ser um louco qualquer. Afogando-se, ele não estava, pois acenava com apenas uma das mãos e, mesmo à distância, ela conseguia identificar no estranho um sorriso de canto de boca. Decidiu continuar olhando o sol. Mas a imagem do rapaz, fixa na retina, parecia dançar no meio da bola de fogo. Irritou-se, ele atrapalhara tudo. Voltou-se novamente para o mar e lá estava ele, ainda acenando, ainda com o maldito sorriso no canto da boca.
Levantou-se, um pouco cega, e resolveu tirar satisfação. Mas ao aproximar-se da beira d'água, ele deu um mergulho e desapareceu. Ela o xingou em pensamento e voltou para a sua canga. Ficou ainda alguns minutos fitando a água, mas nada dele aparecer. Cansou e decidiu retornar ao sol, que estava sempre ali, não acenava e nem mergulhava. Estava se pondo, como em todas as tardes.
Quando as lágrimas já estavam rolando, os pés agarrados à areia, o vento tomando-lhe inteira, angustiou-se. Quis olhar o mar novamente. Tentou controlar-se, não queria ver o estranho, ele incomodava sua paz. Com uma certa dose de masoquismo, porém, virou a cabeça para a direção do infinito, e lá estava. O tonto acenando, incansável. Tapou os olhos com as mãos, mas a imagem dele não sumia, vagava na dimensão escura misturada a objetos geométricos. Por entre os dedos entreabertos, viu que ele estava fazendo sinais.
Como que hipnotizada, ela seguiu as próprias pegadas em direção ao mar. O estranho, sorrindo agora de boca inteira, continuava chamando-a. Zonza depois de uma tarde inteira vidrada no sol, deixou-se cair na água gelada. Ele esticou a mão e puxou-a para si. Abraçou-a e mergulhou.
Depois deste dia, nunca mais se teve notícias dela. Amigos mais saudosos eventualmente olham para o céu, nos fins de tarde. Alguns arriscam dizer que, depois de alguns minutos, conseguem vê-la acenando, flutuando no meio do sol, ao lado de um rapaz estranho. Mas logo abaixam o olhar: é só ilusão de ótica.
sexta-feira, abril 25, 2008
Refazendo tudo...
Hoje o post é uma citação. Não que os outros não fossem, mas esta é explícita: "Refazenda", de Gil. Em breve, uma historinha sobre o verso "Nós também somos do mato".
"Abacateiro acataremos teu ato
Nós também somos do mato como o pato e o leão
Aguardaremos brincaremos no regato
Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração
Abacateiro teu recolhimento é justamente
O significado da palavra temporão
Enquanto o tempo não trouxer teu abacate
Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão
Abacateiro sabes ao que estou me referindo
Porque todo tamarindo tem o seu agosto azedo
Cedo, antes que o janeiro doce manga venha ser também
Abacateiro serás meu parceiro solitário
Nesse itinerário da leveza pelo ar
Abacateiro saiba que na refazenda
Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar
Refazendo tudo
Refazenda
Refazenda toda
Guariroba"
Refaçam, amigos, refaçam! A vida, os desejos, tudo.
"Abacateiro acataremos teu ato
Nós também somos do mato como o pato e o leão
Aguardaremos brincaremos no regato
Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração
Abacateiro teu recolhimento é justamente
O significado da palavra temporão
Enquanto o tempo não trouxer teu abacate
Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão
Abacateiro sabes ao que estou me referindo
Porque todo tamarindo tem o seu agosto azedo
Cedo, antes que o janeiro doce manga venha ser também
Abacateiro serás meu parceiro solitário
Nesse itinerário da leveza pelo ar
Abacateiro saiba que na refazenda
Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar
Refazendo tudo
Refazenda
Refazenda toda
Guariroba"
Refaçam, amigos, refaçam! A vida, os desejos, tudo.
quinta-feira, abril 10, 2008
Aura Soma

“Use sua vasta energia de forma mais positiva possível. Inclua o amor em todos os atos, palavras e pensamentos. Quanto mais energia temos, mais responsabilidade. Podemos construir ou destruir, amar ou odiar, gerar vida ou morte. Seja um amante da vida e desperte para a grande festa, que é a oportunidade de estar neste planeta.”
Cada frasco contem uma mensagem. A minha veio como sinal, sinal de Waly, mais uma vez. A vida é sonho!
terça-feira, abril 08, 2008
Salve, Waly
Sentados numa mesa de bar, mulher e homem conversam.
H: É impressão minha ou um leve purpurinar pousa sobre seus dedos?
M: Porra nenhuma. Falta arte em minha vida. Acho que fui deixando tudo encraquelar pelo caminho. Perdi muitos pedaços.
H: Então recolhe os cacos. E lança essa tua purpurina por aí. As pessoas vão gostar. As pessoas sempre gostam de você.
M: Eu queria era estar em Paris, nos anos 20. Mergulhada na Belle Époque. Mas acho que nos anos 20, ninguém ia achar graça em mim.
H: Nos anos 20, querida, ninguém teria graça. Você iria precisar de muita purpurina. Pensa só: Picasso, Hemingway, Chanel, Beckett? Não é essa mediocridade de hoje em dia.
M: Tirando o Waly. Ele me visitou essa noite. Com seus cabelos encaracolados e sorriso largo de sempre. Ficou repetindo: “A vida é sonho! A vida é sonho! A vida é sonho!”.
H: É um sinal, querida. Preste atenção, pois é um sinal. Waly nunca falha.
M: Sim... Mas eu estou tão cansada...
H: Não importa não, minha honey baby.
H: É impressão minha ou um leve purpurinar pousa sobre seus dedos?
M: Porra nenhuma. Falta arte em minha vida. Acho que fui deixando tudo encraquelar pelo caminho. Perdi muitos pedaços.
H: Então recolhe os cacos. E lança essa tua purpurina por aí. As pessoas vão gostar. As pessoas sempre gostam de você.
M: Eu queria era estar em Paris, nos anos 20. Mergulhada na Belle Époque. Mas acho que nos anos 20, ninguém ia achar graça em mim.
H: Nos anos 20, querida, ninguém teria graça. Você iria precisar de muita purpurina. Pensa só: Picasso, Hemingway, Chanel, Beckett? Não é essa mediocridade de hoje em dia.
M: Tirando o Waly. Ele me visitou essa noite. Com seus cabelos encaracolados e sorriso largo de sempre. Ficou repetindo: “A vida é sonho! A vida é sonho! A vida é sonho!”.
H: É um sinal, querida. Preste atenção, pois é um sinal. Waly nunca falha.
M: Sim... Mas eu estou tão cansada...
H: Não importa não, minha honey baby.
terça-feira, abril 01, 2008
Gente normal
P., 35, divorciada, nunca fez loucuras na vida. Aceitou o convite de uma amiga e foi a uma despedida de solteira num clube de strip-tease masculino. Nunca viu tantos músculos em trajes mínimos se movimentando em sua frente. Um deles a puxou para o palco, jogou-a para cima como se ela fosse uma pluma. A mulherada gritava, enlouquecida. Depois do susto, P. começou a se divertir com o lugar, tão pecaminoso como seus sonhos adolescentes mais distantes. Quando acabou o show, um dos strippers chegou perto dela e puxou assunto. Papo vai, papo vem, ele a chamou para conversar no terraço. Foram. Atracaram-se atrás de uma pilastra, para ele não ser flagrado pelo gerente “voando” em serviço. Chegou a hora da conversa.
- Qual o seu nome?
- P.
- P.?!
- Sim.
- Patrícia? Priscila? Pâmela?
- Só P. e ponto.
Voltaram aos beijos. P. nunca fora abraçada por um homem tão forte. Mas, apesar do tamanho, ele era do tipo sensível. Queria conversar.
- Então, Pâmela, a gente podia sair um dia desses...
- P.! Pra você meu nome é P.! Pâmela, não, né? Nome de puta.
- ....
- Ah, desculpe, não quis ofender a classe.
- Eu não sou puto. Sou dançarino.
- Mas não faz programa?
- Não. Olha, sou uma pessoa normal. De dia sou personal trainer, sabia?
- Ahn...
- Gosto de passear, andar no shopping... Vamos marcar de sair?
- Melhor, não.
- Você tá com medo? A gente faz um passeio de gente normal. Toma sorvete...
“Gente normal”. Ela riu e ficou com pena do rapaz.
- Não é nada com você. Mas é melhor assim, uma noite e nada mais.
- Então anota meu telefone... Quem sabe você muda de idéia?
Com ainda mais pena do rapaz, ela anotou. Ele disse que se chamava Ivan, mas na boate o apelido era Pedro. P. salvou o número no celular como Pedro Ivan. De repente, a amiga veio chamá-la.
- Vamos embora?
P. foi se despedir de Pedro Ivan. Mas o coitado estava a pé. Pediu carona até o ponto do ônibus. Então foram os quatro no carro: P., a amiga, a mãe da amiga e o stripper. Deixaram-no no ponto. Ele pegou um ônibus para o Méier. Por alguns minutos, P. se sentiu mal por não ter permitido ao rapaz um encontro “normal”. Ele só queria tomar sorvete!, pensou. Depois, esqueceu. E nunca ligou pra ele.
- Qual o seu nome?
- P.
- P.?!
- Sim.
- Patrícia? Priscila? Pâmela?
- Só P. e ponto.
Voltaram aos beijos. P. nunca fora abraçada por um homem tão forte. Mas, apesar do tamanho, ele era do tipo sensível. Queria conversar.
- Então, Pâmela, a gente podia sair um dia desses...
- P.! Pra você meu nome é P.! Pâmela, não, né? Nome de puta.
- ....
- Ah, desculpe, não quis ofender a classe.
- Eu não sou puto. Sou dançarino.
- Mas não faz programa?
- Não. Olha, sou uma pessoa normal. De dia sou personal trainer, sabia?
- Ahn...
- Gosto de passear, andar no shopping... Vamos marcar de sair?
- Melhor, não.
- Você tá com medo? A gente faz um passeio de gente normal. Toma sorvete...
“Gente normal”. Ela riu e ficou com pena do rapaz.
- Não é nada com você. Mas é melhor assim, uma noite e nada mais.
- Então anota meu telefone... Quem sabe você muda de idéia?
Com ainda mais pena do rapaz, ela anotou. Ele disse que se chamava Ivan, mas na boate o apelido era Pedro. P. salvou o número no celular como Pedro Ivan. De repente, a amiga veio chamá-la.
- Vamos embora?
P. foi se despedir de Pedro Ivan. Mas o coitado estava a pé. Pediu carona até o ponto do ônibus. Então foram os quatro no carro: P., a amiga, a mãe da amiga e o stripper. Deixaram-no no ponto. Ele pegou um ônibus para o Méier. Por alguns minutos, P. se sentiu mal por não ter permitido ao rapaz um encontro “normal”. Ele só queria tomar sorvete!, pensou. Depois, esqueceu. E nunca ligou pra ele.
domingo, março 30, 2008
Ainda dá tempo de consertar
Logo quando aprendeu a ser livre, deixou-se prender novamente.
Pela primeira vez pluri, poli, multi, deu um passo atrás e virou mono.
Hora de retornar com os tentáculos.
Pela primeira vez pluri, poli, multi, deu um passo atrás e virou mono.
Hora de retornar com os tentáculos.
terça-feira, março 25, 2008
Dona Zefa: final cut
Chegou-me às mãos um bilhete desaforado de dona Zefa da Portela. Reclamou que o post sobre ela neste blog estava poético demais, sonhador demais, e ela não gosta destas frescuras. Pediu que eu relatasse a história de seu desmaio na quadra, tal e qual se deu. Nada de frufrus nem floreios. A pedidos, então, dona Zefa em final cut.
“Assim, no mapa, parece que é perto. Mas Rio das Pedras é bem longe de Madureira. Dona Zefa que o diga. Passa uma calorenta e apertada hora no famigerado 748, até chegar, com as netas Deusilene e Sandra Sílvia, à quadra da Portela. O samba já começou, e a espevitada senhorinha empurra as netas pra dentro. “Vambora, minhas filhas, que hoje eu sambo até me acabar”. Com uma cerveja na mão, ela cumprimenta as colegas, senhorinhas espevitadas como ela, que freqüentam aquela quadra desde novinhas. “Ô, Deusilene, vem aqui falar com a tia Creide!”. A jovem beija dona Cleide e depois trata de sair dali, prefere ficar com a rapaziada. No meio das amigas, Zefa canta, dança, tem quase tanta agilidade quanto as netas. A cerveja - de garrafa, é claro – roda de mão em mão. Mãos enrugadas que levam o líquido amarelo às bocas também enrugadas, sorridentes.
Na hora da feijoada, dona Zefa come seu pratinho de graça, como sempre. Conhece as cozinheiras, cresceu brincando com elas nas ruas de Madureira. Isso bem antes de casar e se despencar para o Rio das Pedras. Feijoada sempre dá sede. “Creide, pega mais uma garrafa pra gente?”. As senhorinhas bebem. E dançam. Sambam. Sapateiam as sandálias e sapatilhas sujas de lama.
Em cima do palco, dona Zefa vê o neto brilhando. Entre os músicos, Joilson dedilha seu cavaquinho e sorri para a avó. Já sabe o que ela quer: Zeca Pagodinho. O grupo manda ver um sucesso do cantor, e a quadra vem abaixo. Dona Zefa sente o calor da multidão, tão forte que a faz perder o ar. Meio tonta, se esforça para respirar, mas tudo fica preto de repente.
Chamadas às pressas por Cleide, Deusilene e Sandra Sílvia levam a avó para o banheiro. Semidesmaiada, Zefa tem as pernas moles. Seu rosto negro está pálido. “Meu Deus, ela vai morrer!”, chora uma, enquanto a outra abana a avó, já sentada numa cadeira. Pequeno e lotado de mulheres, o banheiro enlameado vira um verdadeiro caos. “Bota ela no chuveiro!”, alguém diz. Deusilene e Sandra Sílvia tiram a roupa da pobre velhinha e a colocam sob a água fria.
Chega um médico. “Quem está passando mal aqui?”. As mulheres – muitas estavam ali por pura curiosidade – apontam o box do chuveiro. Mas as netas escandalosas o impedem de ver dona Zefa. “Ela tá pelada, sai daqui!”, diz Sandra Sílvia, batendo a porta na cara do doutor. “Minha senhora, eu preciso examinar sua avó, abre essa porta”. “Pelada, não!”. “Então botem a roupa nela!”.
Alguém tem a feliz idéia de jogar a roupa de dona Zefa por cima da porta. As netas vestem a avó, que já está recobrando os sentidos. O médico finalmente a examina. Recomenda menos agitação, menos cerveja e menos comida gordurosa. Assustada, Zefa faz que sim com a cabeça.
Um mês depois, porém, lá está dona Zefa de novo. Afinal, ela não é mulher de frufrus e floreios. “Desce mais uma pra gente, Creide!”.
“Assim, no mapa, parece que é perto. Mas Rio das Pedras é bem longe de Madureira. Dona Zefa que o diga. Passa uma calorenta e apertada hora no famigerado 748, até chegar, com as netas Deusilene e Sandra Sílvia, à quadra da Portela. O samba já começou, e a espevitada senhorinha empurra as netas pra dentro. “Vambora, minhas filhas, que hoje eu sambo até me acabar”. Com uma cerveja na mão, ela cumprimenta as colegas, senhorinhas espevitadas como ela, que freqüentam aquela quadra desde novinhas. “Ô, Deusilene, vem aqui falar com a tia Creide!”. A jovem beija dona Cleide e depois trata de sair dali, prefere ficar com a rapaziada. No meio das amigas, Zefa canta, dança, tem quase tanta agilidade quanto as netas. A cerveja - de garrafa, é claro – roda de mão em mão. Mãos enrugadas que levam o líquido amarelo às bocas também enrugadas, sorridentes.
Na hora da feijoada, dona Zefa come seu pratinho de graça, como sempre. Conhece as cozinheiras, cresceu brincando com elas nas ruas de Madureira. Isso bem antes de casar e se despencar para o Rio das Pedras. Feijoada sempre dá sede. “Creide, pega mais uma garrafa pra gente?”. As senhorinhas bebem. E dançam. Sambam. Sapateiam as sandálias e sapatilhas sujas de lama.
Em cima do palco, dona Zefa vê o neto brilhando. Entre os músicos, Joilson dedilha seu cavaquinho e sorri para a avó. Já sabe o que ela quer: Zeca Pagodinho. O grupo manda ver um sucesso do cantor, e a quadra vem abaixo. Dona Zefa sente o calor da multidão, tão forte que a faz perder o ar. Meio tonta, se esforça para respirar, mas tudo fica preto de repente.
Chamadas às pressas por Cleide, Deusilene e Sandra Sílvia levam a avó para o banheiro. Semidesmaiada, Zefa tem as pernas moles. Seu rosto negro está pálido. “Meu Deus, ela vai morrer!”, chora uma, enquanto a outra abana a avó, já sentada numa cadeira. Pequeno e lotado de mulheres, o banheiro enlameado vira um verdadeiro caos. “Bota ela no chuveiro!”, alguém diz. Deusilene e Sandra Sílvia tiram a roupa da pobre velhinha e a colocam sob a água fria.
Chega um médico. “Quem está passando mal aqui?”. As mulheres – muitas estavam ali por pura curiosidade – apontam o box do chuveiro. Mas as netas escandalosas o impedem de ver dona Zefa. “Ela tá pelada, sai daqui!”, diz Sandra Sílvia, batendo a porta na cara do doutor. “Minha senhora, eu preciso examinar sua avó, abre essa porta”. “Pelada, não!”. “Então botem a roupa nela!”.
Alguém tem a feliz idéia de jogar a roupa de dona Zefa por cima da porta. As netas vestem a avó, que já está recobrando os sentidos. O médico finalmente a examina. Recomenda menos agitação, menos cerveja e menos comida gordurosa. Assustada, Zefa faz que sim com a cabeça.
Um mês depois, porém, lá está dona Zefa de novo. Afinal, ela não é mulher de frufrus e floreios. “Desce mais uma pra gente, Creide!”.
terça-feira, março 11, 2008
Na CDD
Na Cidade de Deus, dizia Buscapé no filme, não dá pra saber o que é pior: encarar os bandidos ou a polícia. Semana passada, ninguém passava ali. Todos os acessos à favela estavam fechados pelos hômi. Tiroteio a madrugada toda. Ônibus e carros precisavam fazer a volta pela Barra.
Mas não quero falar disso agora. Prefiro lembrar da feijoada da Graça.
Era uma tarde de sábado quando cheguei naquela ruela de paralelepípedos. Avistei logo uns amigos com uma latinha de cerveja na mão. Graça, a faxineira da academia, me recebeu toda feliz, era inauguração do boteco dela. Minutos depois eu já estava com minha latinha, batendo papo. Um paredão de caixas de som tocava um pagode, ainda lentinho, só cozinhando o pessoal antes de começar a farra pra valer. Mães levaram cadeiras de praia pra calçada e faziam penteados nos cabelos das filhas. Dois amigos meus jogavam sueca com moradores da CDD. Parei pra espiar o jogo, enquanto batia meu pratão de feijoada preparado pela Graça. Um dos moradores, um mudinho cachaceiro, estava dando um sacode nos playboys. A cada vitória, um gole de caninha, que ele comprava com moedas de 10 centavos retiradas de um saco velho de mercado. Ele jogava, ganhava e bebia. Bebia de novo. Mais uma vez. “Por que você não come?”, perguntei. Ele riu, como se dissesse: “Não vou gastar minhas moedas com isso”. Olhei meu pratão de feijoada que eu não conseguia terminar. Ofereci. “Toma. Não consigo mais”. O Mudinho pegou meu prato, e comeu, feliz. Largou da cana pelo menos até terminar a comida. Um pancadão nervoso começou a tocar. Popozudas de shortinho já se posicionaram em frente à parede de som. Funkeira metida à mãe loura desde os tempos de rádio Manchete, resolvi me meter no meio delas. Dancei, balancei meu popô G até o chão. Não me contentei com a dança, comecei a cantar também. Quando percebi, segurava um microfone e puxava um melô qualquer com voz esganiçada. A galera dançava, se divertia com a MC branquela. A feijoada da Graça era um sucesso. Cansei de pagar mico com “as colega” e fui dançar com os amigos da academia. A essa altura, o Mudinho já tinha terminado a feijoada e requebrava na pista de dança – que era o meio da rua mesmo. Um colega dele, que só tinha uma perna, chegou do lado balançando as muletas de madeira carcomida. Começaram a se estranhar. Mudinho versus Perneta. O povo ria com os empurrões que um dava no outro. Botavam pilha nos dois. Mas a briga não passou disso. Logo eles estavam rindo também, embalados pela cana, pela música e pela alegria de estar ali. Alegria que era dos moradores e dos playbas como eu. A feijoada foi até tarde. Graça estava em estado dela mesma, estado de graça. Com perdão do trocadilho.
Depois deste dia, voltei outra vez lá, para um churrasco. Mas isso já é outra história. Desde então, nunca mais vi Graça. Espero que ela esteja bem e que os hômi não tenham mexido com o boteco dela. Quero voltar lá.
Mas não quero falar disso agora. Prefiro lembrar da feijoada da Graça.
Era uma tarde de sábado quando cheguei naquela ruela de paralelepípedos. Avistei logo uns amigos com uma latinha de cerveja na mão. Graça, a faxineira da academia, me recebeu toda feliz, era inauguração do boteco dela. Minutos depois eu já estava com minha latinha, batendo papo. Um paredão de caixas de som tocava um pagode, ainda lentinho, só cozinhando o pessoal antes de começar a farra pra valer. Mães levaram cadeiras de praia pra calçada e faziam penteados nos cabelos das filhas. Dois amigos meus jogavam sueca com moradores da CDD. Parei pra espiar o jogo, enquanto batia meu pratão de feijoada preparado pela Graça. Um dos moradores, um mudinho cachaceiro, estava dando um sacode nos playboys. A cada vitória, um gole de caninha, que ele comprava com moedas de 10 centavos retiradas de um saco velho de mercado. Ele jogava, ganhava e bebia. Bebia de novo. Mais uma vez. “Por que você não come?”, perguntei. Ele riu, como se dissesse: “Não vou gastar minhas moedas com isso”. Olhei meu pratão de feijoada que eu não conseguia terminar. Ofereci. “Toma. Não consigo mais”. O Mudinho pegou meu prato, e comeu, feliz. Largou da cana pelo menos até terminar a comida. Um pancadão nervoso começou a tocar. Popozudas de shortinho já se posicionaram em frente à parede de som. Funkeira metida à mãe loura desde os tempos de rádio Manchete, resolvi me meter no meio delas. Dancei, balancei meu popô G até o chão. Não me contentei com a dança, comecei a cantar também. Quando percebi, segurava um microfone e puxava um melô qualquer com voz esganiçada. A galera dançava, se divertia com a MC branquela. A feijoada da Graça era um sucesso. Cansei de pagar mico com “as colega” e fui dançar com os amigos da academia. A essa altura, o Mudinho já tinha terminado a feijoada e requebrava na pista de dança – que era o meio da rua mesmo. Um colega dele, que só tinha uma perna, chegou do lado balançando as muletas de madeira carcomida. Começaram a se estranhar. Mudinho versus Perneta. O povo ria com os empurrões que um dava no outro. Botavam pilha nos dois. Mas a briga não passou disso. Logo eles estavam rindo também, embalados pela cana, pela música e pela alegria de estar ali. Alegria que era dos moradores e dos playbas como eu. A feijoada foi até tarde. Graça estava em estado dela mesma, estado de graça. Com perdão do trocadilho.
Depois deste dia, voltei outra vez lá, para um churrasco. Mas isso já é outra história. Desde então, nunca mais vi Graça. Espero que ela esteja bem e que os hômi não tenham mexido com o boteco dela. Quero voltar lá.
terça-feira, fevereiro 26, 2008
We'll always have Paris
Cansada depois de um dia de caminhadas sob um sol seco, foi surpreendida pelos australianos, animados como cariocas. Uma volta em Montmartre? Oui, pourquoi pas... Andaram pelas ladeiras de paralelepípedos, comeram crème brûlée no café da Amelie Poulain, fotografaram e filmaram, como bons turistas que eram. Depois de visitarem uma loja de vinhos, cada um saiu com uma garrafa de dois euros na mão. Decidiram beber nas escadarias da Sacre-Coeur, importando-se menos com a arte sacra e mais com a deliciosa sensação de ter Paris aos seus pés. Sentados junto com eles, dezenas de jovens do mundo inteiro conversavam, emanando seus espíritos livres a ponto de dar inveja a Nietzsche. Uma chilena que havia morado em São Paulo. Um cubano tentando ser Che. Italianos, ingleses, americanos, brasileiros, fundindo seus mundos, deglutindo-se uns aos outros, entre goladas de vinho e tragadas entorpecentes.Foi quando Clive, um simpático gordinho australiano de dentes infantis, aproximou-se e puxou assunto com ela. Começaram falando de vinho, depois de viagens, culturas estrangeiras, pinturas – ele disse que era pintor amador. Sensível e delicado, Clive também escrevia, desenhava e lia, lia muito. Ele falou de Thomas Mann. Ela falou de Gabriel Garcia Márquez e Rubem Fonseca. Trocaram emails, links de blogs. Sentiam-se velhos amigos. Na volta para o albergue, ele a fotografou vendo as estrelas. Sim, ele também fotografava. Dias depois, Clive seguiu para Londres e ela para Veneza. Trocaram alguns emails falando de suas viagens. Ele enviou as fotos do grupo na Torre Eiffel. O último email que ela recebeu dele era enorme, falava de Ingrid Bergman e sua famosa frase em Casablanca: We’ll always have Paris. Por falta de tempo, ela não o respondeu.
Meses depois, recebeu uma mensagem de Andrew, um dos australianos do grupo: Clive havia morrido de pneumonia. Triste, ela chorou toda uma tarde. Resolveu entrar no blog dele, tentando encontrar fotos da Cidade Luz. Seu coração quase parou quando viu, em um dos posts, uma imagem. Era uma pintura dela, sentada na porta do albergue, olhando as estrelas.
sexta-feira, fevereiro 22, 2008
Barbara
Sem saber o motivo, começou a pensar no próprio nome. Barbara. Repetiu-o algumas vezes, estranhando a sonoridade. Barbara. Barbara. “Nome bruto”, pensou. Olhou-se no espelho e encarou a imagem. “Então essa sou eu”. Não se reconheceu. Reparou em cada detalhe do rosto refletido: olhos, nariz, boca. O buraquinho no lado esquerdo da bochecha. Esta pessoa era ela, assim como era ela o nome estranho repetido diversas vezes. Mas nada lhe era familiar, nem o nome, nem a imagem. Em seu mundo interior, Barbara era uma figura sem forma, uma sensação, um buraco negro que ora se esticava, ora se encolhia. Não tinha rosto, muito menos uma palavra que a designasse. Ela era seus sentidos, era o que enxergava, ouvia, pegava, comia e cheirava. O espelho lhe mostrou um ser desconhecido. Um ser chamado Barbara, que, por acaso, ela era mesma. Muito prazer.
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
Pequena Miss Sunshine
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
Pode ser a gota d'água
Quando o ar lhe pesava, mergulhava a cabeça n’água e via tudo com uma clareza estarrecedora. De repente, tudo fazia sentido, compreendia os pormenores secretos que a atormentavam, olhava de cima para sua própria vida. Como se ela não fosse ela, fosse outra a olhar a vida alheia. Enxergava cada pedaço com frieza médica, juntava os fios soltos, identificava traumas, apontava soluções, percebia os inimigos. Pesava o necessário e o desnecessário, mesmo sabendo que os conceitos de necessidade mudam sempre. Cristalino, cristalino, como nunca pensara nisso antes? O sentido é que não há sentido, somente o objetivo. Viver seguindo o um, sem buscar o outro.Percebendo-se afogada, chorou. Cada lágrima pode ser a gota d’água. Um dia vai transbordar tudo de uma vez, ela pensa, submergindo a cabeça.
"Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta..."
Olha a gota que falta..."
terça-feira, dezembro 18, 2007
Fuga das galinhas

Gertrudes nunca foi muito de se conformar com as coisas. Desde pequena, não queria comer o que lhe mandavam, implicava com as crianças que teimavam em lhe apertar e olhava com desprezo para as colegas acomodadas. Não dava bola para os machos que apareciam ali de vez em quando e fazia questão de pregar, em noites de cantoria coletiva, que o mundo lá fora era bem melhor que os apertados cômodos onde moravam.
O sonho de Gertrudes era entrar no caminhão, que uma vez na semana aportava por ali, e seguir seu rumo. Invejava as colegas escolhidas para irem embora. “Um dia, chega a minha vez”, pensava. Terezinha e Berlota, as únicas que suportavam seu mau humor panfletário, diziam que Gertrudes era louca de querer entrar no caminhão. “Ninguém nunca voltou de lá”, afirmavam. “E quem ia querer voltar para um chiqueiro desses?”, retrucava Gertrudes.
Até que o grande dia chegou. Terezinha e Berlota também foram convocadas, muito a contragosto. Fim de ano sempre chamavam mais gente do que o normal. Gertrudes era só alegria, pulava aqui e ali, despedindo-se de todas. Transformou-se na mais simpática do lugar, pelo menos naquele dia. Chegou a trocar olhares com uns machos que zanzavam por ali, coisa que nunca havia feito antes.
Despedidas feitas, promessas de “Até breve” e “Um dia você vai também”, chegou a hora de subir no caminhão. Desta vez, foram centenas. Uma a uma, todas foram se acomodando, ansiosas e faladeiras. O carro deu a partida e lá foram elas, pela estrada. Passaram-se horas, e nada de chegarem ao misterioso destino. Anoiteceu, amanheceu novamente. Gertrudes estava angustiada, o sacrifício era maior do que pensava. Estavam apertadas, esfomeadas. Algumas puxavam briga com as outras. O calor era insuportável, o barulho, ensurdecedor.
Gertrudes cansou. Esperou a vida toda para sair de casa, e agora estava ali passando necessidades. Olhou para Terezinha e Berlota, e disse: “Vou fugir”. As duas olharam-na espantadas. “Você não teria coragem...”. Mas Gertrudes teve. Com o máximo de força que conseguiu reunir, quebrou parte da grade. Colocou o pescoço para fora e sentiu o ventinho de liberdade batendo no rosto. Com cuidado, foi colocando o corpinho para fora. Saltou para a rua.
Não demorou muito para que fosse pega por um transeunte. “Isso aqui garante o meu Natal esse ano”, disse, olhando para ela. Do caminhão, Terezinha e Berlota viram Gertrudes ser levada pelo estranho. “A gente podia ter ido com ela”, pensaram, mas sem coragem de espichar a cabeça para fora do buraco, com medo de sentir o ventinho perigoso.
O sonho de Gertrudes era entrar no caminhão, que uma vez na semana aportava por ali, e seguir seu rumo. Invejava as colegas escolhidas para irem embora. “Um dia, chega a minha vez”, pensava. Terezinha e Berlota, as únicas que suportavam seu mau humor panfletário, diziam que Gertrudes era louca de querer entrar no caminhão. “Ninguém nunca voltou de lá”, afirmavam. “E quem ia querer voltar para um chiqueiro desses?”, retrucava Gertrudes.
Até que o grande dia chegou. Terezinha e Berlota também foram convocadas, muito a contragosto. Fim de ano sempre chamavam mais gente do que o normal. Gertrudes era só alegria, pulava aqui e ali, despedindo-se de todas. Transformou-se na mais simpática do lugar, pelo menos naquele dia. Chegou a trocar olhares com uns machos que zanzavam por ali, coisa que nunca havia feito antes.
Despedidas feitas, promessas de “Até breve” e “Um dia você vai também”, chegou a hora de subir no caminhão. Desta vez, foram centenas. Uma a uma, todas foram se acomodando, ansiosas e faladeiras. O carro deu a partida e lá foram elas, pela estrada. Passaram-se horas, e nada de chegarem ao misterioso destino. Anoiteceu, amanheceu novamente. Gertrudes estava angustiada, o sacrifício era maior do que pensava. Estavam apertadas, esfomeadas. Algumas puxavam briga com as outras. O calor era insuportável, o barulho, ensurdecedor.
Gertrudes cansou. Esperou a vida toda para sair de casa, e agora estava ali passando necessidades. Olhou para Terezinha e Berlota, e disse: “Vou fugir”. As duas olharam-na espantadas. “Você não teria coragem...”. Mas Gertrudes teve. Com o máximo de força que conseguiu reunir, quebrou parte da grade. Colocou o pescoço para fora e sentiu o ventinho de liberdade batendo no rosto. Com cuidado, foi colocando o corpinho para fora. Saltou para a rua.
Não demorou muito para que fosse pega por um transeunte. “Isso aqui garante o meu Natal esse ano”, disse, olhando para ela. Do caminhão, Terezinha e Berlota viram Gertrudes ser levada pelo estranho. “A gente podia ter ido com ela”, pensaram, mas sem coragem de espichar a cabeça para fora do buraco, com medo de sentir o ventinho perigoso.
segunda-feira, dezembro 10, 2007
Bolhas
Quando ela chegou à beira do lago, ele estava se afogando.
Não conseguiu salvá-lo.
Chorou somente uma lágrima.
E depois o esqueceu para sempre.
Não conseguiu salvá-lo.
Chorou somente uma lágrima.
E depois o esqueceu para sempre.
quarta-feira, dezembro 05, 2007
Vazio
1: Dá pra encher o vazio com música?
2: Nem sempre, algumas ajudam a esvaziar ainda mais.
1: E com filme, dá?
2: Durante duas horas, até dá. Mas e depois?
1: Hum. De repente um telefonema faz melhorar.
2: Depende da voz da pessoa do outro lado da linha.
1: Um e-mail, talvez?
2: De tantos que se recebe por dia, poucos se salvam.
1: Mas umas cervejas conseguem encher o vazio.
2: Conseguem. Mas se você exagerar, faz besteira. E o vazio só piora.
1: O vazio dói.
2: Eu sei, choro todo dia por ele.
1: Até há pouco tempo eu não o sentia.
2: É claro, estava preenchido de ilusão.
1: Não tenho mais idade pra ilusões.
2: Por isso estamos vazios.
1: E o que fazemos, então?
2: Vamos fingir que o vazio não existe.
1: Agora?
2: Sim. Um, dois, três e... Já!
2: Nem sempre, algumas ajudam a esvaziar ainda mais.
1: E com filme, dá?
2: Durante duas horas, até dá. Mas e depois?
1: Hum. De repente um telefonema faz melhorar.
2: Depende da voz da pessoa do outro lado da linha.
1: Um e-mail, talvez?
2: De tantos que se recebe por dia, poucos se salvam.
1: Mas umas cervejas conseguem encher o vazio.
2: Conseguem. Mas se você exagerar, faz besteira. E o vazio só piora.
1: O vazio dói.
2: Eu sei, choro todo dia por ele.
1: Até há pouco tempo eu não o sentia.
2: É claro, estava preenchido de ilusão.
1: Não tenho mais idade pra ilusões.
2: Por isso estamos vazios.
1: E o que fazemos, então?
2: Vamos fingir que o vazio não existe.
1: Agora?
2: Sim. Um, dois, três e... Já!
sábado, dezembro 01, 2007
J.
J. espreme, espreme, e nada. Que raiva, ele pensa. Eu sinto que tem algo, se dói, é porque tem. Continua apertando, tenta de um lado, do outro. Devagar e rápido. Não sai nada. Toda vez é assim. J. percebe que ali embaixo tem coisa, mas sente sempre nas piores horas. No ônibus, na cama ao deitar, no restaurante e enquanto conversa com alguém. Aquilo lateja, parece que vai explodir, livrando-o de vez da dor maldita. No entanto, se conscientemente J. se presta a espremer, só o que sente é o sangue escorrendo. Mistura de fluidos, vermelho-derrota e transparente-vazio. Talvez espremer não seja o certo, talvez uma lâmina resolva, arranco tudo de uma vez e espirro em cima de todo mundo, para provar que tem coisa aí dentro sim, eu sei que tem. J. pragueja demais. E a lâmina continua intacta na gaveta. No fim das contas, ele prefere colocar uma compressa quente, deixando tudo se esvair na corrente sanguínea.
segunda-feira, novembro 26, 2007
Zefa
“Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar... Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar...”. Dona Zefa canta, é sua música preferida. Toca todo sábado na quadra da Portela. Os braços para cima, os olhos fechados. “É ele quem me carrega como nem fosse levar”. Tum. Tum. O bumbo arrepiando a pele negra e enrugada. Dona Zefa nem pode, mas já tomou algumas várias latas de cerveja. A feijoada também lhe pesa no estômago. “E quanto mais remo mais rezo, pra nunca mais se acabar...”. Ela olha para o palco, a Velha Guarda desliza no mar calmo de Paulinho da Viola. Tum. Tum. O bumbo a faz remar para o passado, ali mesmo naquele chão, tantas vezes ela sambou. Desde que era Zefinha e ninguém a chamava de “dona”. Tum. Tum. Josefa mexe os pés cansados, de samba ela nunca se cansa. “A rede do meu destino parece a de um pescador. Quando retorna vazia, vem carregada de dor”. Quantas dores Dona Zefa já carregou, “vivo num redemoinho”, ela canta. Um rodamoinho. Ela gira, sambando seus pés cansados, a quadra gira, gira também a Velha Guarda. Tum. Tum. Dona Zefa perde as forças e vai desabando. Só não chega ao chão porque a multidão não deixa. Pescadores como ela tomam-na nos braços. Tum. Tum. Carregada para longe dali, ela ainda ouve os últimos versos, antes de o mar levá-la de vez. “Deus bem sabe o que ele faz. A onda que me carrega, ela mesma é quem me traz...”.
Assinar:
Postagens (Atom)

